Praxis: o grupo por trás do plano de Trump para a Groenlândia
Imagine acordar em Nuuk, capital da Groenlândia, e descobrir que estrangeiros pousaram na cidade para discutir algo impensável: a compra da ilha inteira. Não se tratava de diplomatas, nem de empresários comuns. Eram membros de um grupo quase desconhecido do grande público, mas extremamente influente nos bastidores do poder global.
Esse grupo se chama Praxis. E, nos últimos meses, ele deixou de ser uma curiosidade excêntrica do Vale do Silício para se tornar uma peça concreta no tabuleiro geopolítico internacional, especialmente após declarações e gestos de Donald Trump envolvendo a Groenlândia.
“O que parecia teoria marginal virou estratégia política real.”
O que é a Praxis e por que ela se define como uma nação digital?
A Praxis se apresenta como “a primeira nação digital do mundo”. Na prática, trata-se de uma combinação incomum entre fundo de investimento, movimento ideológico tecnolibertário e experimento político radical.
Seu objetivo é criar cidades-estado privadas, com baixa tributação, legislação própria, economia baseada em blockchain e administração orientada por tecnologia e inteligência artificial. Um território desenhado para atrair elites tecnológicas, empreendedores e investidores que veem os Estados nacionais tradicionais como estruturas obsoletas.
Durante anos, a Praxis buscou locais viáveis para esse projeto em países da Europa, África e Balcãs. Nada parecia suficientemente grande, estável ou estratégico. Até que o grupo voltou os olhos para a Groenlândia.
Quem é Dryden Brown, o arquiteto da ideia
À frente da Praxis está Dryden Brown, um empresário norte-americano na casa dos 30 anos que se tornou conhecido por sua retórica agressiva contra os governos modernos. Segundo o próprio Brown, sua motivação nasceu após a eleição de Joe Biden, quando concluiu que os Estados Unidos haviam se tornado um “Estado falido”.
A partir daí, Brown passou a defender abertamente a criação de um território soberano privado, onde indivíduos considerados “altamente capazes” pudessem prosperar livres das restrições legais e fiscais atuais.
Esse pensamento não ficou apenas no discurso. Em 2024, Brown liderou pessoalmente uma missão à Groenlândia para testar o terreno político e econômico da proposta.
A tentativa real de “comprar” a Groenlândia
No verão de 2024, quatro americanos desembarcaram em Nuuk sem aviso prévio. Eles se reuniram com empresários da mineração, representantes locais e tentaram contato direto com parlamentares groenlandeses. O objetivo era claro: avaliar a viabilidade de adquirir a ilha.
A proposta não avançou. A população local rejeitou veementemente a ideia de ser “comprada”. Ainda assim, os membros da Praxis identificaram algo crucial: o desejo crescente de independência da Dinamarca.
O obstáculo, segundo Brown, é financeiro. A Dinamarca repassa cerca de US$ 500 milhões anuais ao orçamento groenlandês. A Praxis acredita que poderia substituir esse valor com mineração, turismo e a construção de uma nova cidade de alta tecnologia.
Trump, o novo embaixador e o sinal político
Pouco tempo depois da fracassada investida da Praxis, Donald Trump voltou a chocar o mundo ao afirmar que os Estados Unidos deveriam anexar a Groenlândia. O discurso ganhou peso quando Trump nomeou Ken Howery como novo embaixador na Dinamarca.
Howery não é um diplomata comum. Ele é cofundador do PayPal, aliado de Peter Thiel, amigo próximo de Elon Musk e financiador da Praxis. No dia da nomeação, a conta oficial do grupo publicou apenas duas palavras: “De acordo com o plano”.
“Não é só retórica. Há interesses organizados por trás dessa ideia.”
Da excentricidade ao poder financeiro real
Até poucos anos atrás, a Praxis operava com um financiamento modesto, pouco acima de US$ 4 milhões. Entre seus apoiadores iniciais estavam nomes conhecidos do setor tecnológico, como Sam Altman, investidores de criptomoedas e fundos ligados ao Vale do Silício.
Tudo mudou em 2025. O grupo anunciou ter alcançado US$ 525 milhões em financiamento. Sua comunidade cresceu de cerca de 13 mil membros para mais de 150 mil pessoas em pouco mais de um ano.
Nesse momento, a Praxis deixou de ser uma curiosidade ideológica para se tornar um ator com recursos, influência política e ambição territorial.
Estados privados e o fim dos países como conhecemos?
A ideologia da Praxis se inspira no conceito de “estados rede”, defendido por investidores do universo cripto. A ideia prevê o surgimento de territórios privados hiperconectados, com governança própria, moeda digital e reconhecimento internacional gradual.
Esse pensamento também dialoga com o chamado aceleracionismo tecnológico, que defende testar rapidamente inovações radicais sem as amarras regulatórias atuais. Groenlândia, com vastas áreas pouco povoadas e recursos naturais estratégicos, surge como o laboratório perfeito.
Para críticos e serviços de inteligência europeus, o projeto levanta alertas sérios sobre soberania, democracia e influência estrangeira.
Por que a Groenlândia virou peça-chave no jogo global?
Além do simbolismo político, a Groenlândia abriga terras raras, minerais estratégicos e uma posição geográfica crucial no Ártico, região cada vez mais disputada por potências globais.
O interesse dos Estados Unidos cresce à medida que o degelo amplia o acesso a esses recursos. Para a Praxis, isso representa uma oportunidade única de unir tecnologia, território e poder político em um mesmo projeto.
A pergunta que fica não é mais se a ideia é absurda. É até onde ela pode chegar.
Considerações finais: ficção distópica ou ensaio do futuro?
O que começou como uma proposta marginal de bilionários do Vale do Silício agora orbita o centro do poder global. A Praxis aposta em um futuro onde Estados nacionais perdem força e territórios privados ganham protagonismo.
Se isso se concretizará ou não, ninguém sabe. Mas o simples fato de um presidente dos Estados Unidos ecoar parte dessa visão já indica que algo mudou profundamente.
Talvez a Groenlândia seja apenas o primeiro capítulo.