Brasileiros cruzam a fronteira atrás de imposto de 1%
Já imaginou empacotar sua empresa, atravessar a fronteira e abrir as portas em outro país só para pagar menos imposto? Para muitos brasileiros, isso deixou de ser uma hipótese distante e virou parte da estratégia para sobreviver. Com uma alíquota que parece até brincadeira de tão baixa apenas 1% o Paraguai vem se tornando o endereço preferido de quem busca respirar fora da pressão tributária brasileira.
“O Paraguai virou uma espécie de rota alternativa para quem quer continuar crescendo sem se afogar em impostos.”
O movimento inclui desde pequenos empreendedores até gigantes tradicionais como a Lupo, que reacenderam o debate sobre o peso e a complexidade do sistema tributário nacional.
O que levou a Lupo a olhar para fora
Quando Matheus Lupo, presidente da histórica fabricante de meias e roupas íntimas, relembra que a empresa quase quebrou nos anos 1990, o assunto volta à tona com intensidade. Foi esse período crítico que colocou luz sobre um problema recorrente: sobreviver no Brasil exige um verdadeiro malabarismo tributário.
A Lupo conseguiu se reerguer, renegociou dívidas, pagou tudo o que devia e seguiu adiante. Mas não sem antes perceber que, do lado de cá da fronteira, os custos e a insegurança jurídica continuavam sendo obstáculos constantes.
E foi aí que o Paraguai entrou no mapa estratégico da empresa.
O que é o regime de maquila e por que ele atrai brasileiros
No Paraguai, a Lupo encontrou um cenário completamente diferente. O regime de maquiladoras permite que empresas voltadas à exportação paguem um imposto único de 1% sobre o valor agregado. É simples, direto e, para muitos brasileiros, quase surreal.
Esse modelo transformou o país vizinho em um verdadeiro polo industrial. Hoje, boa parte das maquilas é controlada por empresários brasileiros, especialmente nos setores têxtil, automotivo e de eletrônicos.
Aproximadamente 70% das empresas instaladas sob o regime de maquila têm origem brasileira.
Com custos menores e energia relativamente barata, muitas dessas fábricas produzem ali e exportam para cá, aproveitando também as regras do Mercosul.
A diferença na carga tributária entre os países
Aqui está uma comparação que deixa qualquer um de queixo caído.
Enquanto o Brasil arrecada cerca de 32% do seu PIB em tributos, o Paraguai fica por volta de 18%. Em números por pessoa, isso significa cerca de US$ 4.700 anuais no Brasil, contra US$ 1.700 no Paraguai.
Essa discrepância explica muita coisa.
Por um lado, o Brasil oferece serviços públicos mais amplos. Por outro, coloca empresas em um labirinto de regras, alíquotas e inseguranças que, na prática, elevam custos e reduzem competitividade.
Os obstáculos do “paraíso tributário”
Nem tudo são flores do outro lado da fronteira. Empresários instalados no Paraguai relatam dificuldades que vão desde falta de mão de obra qualificada até problemas de infraestrutura.
A informalidade é elevada, o acesso ao crédito é limitado e os indicadores sociais e de corrupção ainda deixam a desejar.
Isso não impede a migração, mas mostra que o país vizinho não é exatamente um oásis. É mais uma alternativa para quem sente que o custo Brasil pesa demais.
A reforma tributária no Brasil e o futuro desse movimento
A migração de empresas como a Lupo evidencia uma realidade importante. Sem mudanças estruturais, o Brasil corre o risco de continuar perdendo investimentos para ambientes mais descomplicados, ainda que mais frágeis em outros aspectos.
A implementação da reforma tributária promete aliviar parte da pressão ao longo dos próximos anos. Mas o processo será lento, com mudanças significativas previstas apenas a partir de 2027 e consolidadas até 2033.
Até lá, a movimentação continua: empresários seguem equilibrando vantagens, riscos e incertezas enquanto atravessam fronteiras em busca de competitividade.