Quando uma bandeira deixa de ser pano e vira mensagem
Em janeiro de 2026, uma cena chamou a atenção do mundo: um manifestante escalou a sacada da embaixada do Irã em Londres e trocou a bandeira oficial da República Islâmica por um símbolo que não é visto ali há quase meio século. No lugar do emblema religioso atual, voltou a tremular a antiga bandeira do Leão e Sol, ligada à monarquia iraniana.
O gesto foi rápido, arriscado e profundamente simbólico. Mais do que um ato de protesto isolado, ele revelou algo maior: uma disputa aberta pela identidade do Irã, travada não apenas nas ruas, mas também nos símbolos que representam o país.
Quando uma bandeira é trocada, o que está em jogo não é o tecido, mas a ideia de nação.
As raízes simbólicas das bandeiras do Irã
A história das bandeiras do Irã é antiga e atravessa mitos, impérios, religiões e revoluções. Desde a Pérsia antiga, estandartes funcionaram como instrumentos de poder e identidade coletiva.
Um dos símbolos mais antigos associados ao imaginário iraniano é o Derafsh Kaviani, o lendário estandarte citado no Shahnameh, épico persa que narra a revolta de um ferreiro contra a tirania. Embora mitológico, esse símbolo ajudou a moldar a ideia de um Irã unido contra a opressão, algo que ecoa até hoje no discurso político e cultural do país.
Ao longo dos séculos, essa herança simbólica foi sendo reinterpretada, adaptada e incorporada aos regimes que governaram o território iraniano.
O Leão e Sol: da astrologia ao nacionalismo
O emblema do Leão e Sol começou a ganhar destaque a partir do período safávida, entre os séculos XVI e XVIII. Inicialmente, ele tinha forte ligação com a astrologia, representando o Sol no signo de Leão, uma combinação tradicionalmente associada à realeza, poder e ordem cósmica.
Com o tempo, o símbolo passou a ganhar novas camadas de significado. Sob os safávidas, ele foi reinterpretado como a união entre o poder do Estado e a fé islâmica xiita. Já no período da dinastia Qajar, no século XIX, o Leão e Sol assumiu contornos mais claramente nacionalistas e seculares.
O leão passou a ser associado a heróis da mitologia persa, como Rostam, enquanto o sol simbolizava a pátria, a continuidade histórica e a soberania iraniana. A iconografia religiosa foi sendo gradualmente suavizada, abrindo espaço para uma leitura mais patriótica do símbolo.
A bandeira oficial da monarquia iraniana
Em 1906, com a Revolução Constitucional Persa, o Irã formalizou seus símbolos nacionais. Foi nesse momento que as cores verde, branco e vermelho se tornaram oficiais, cada uma carregando significados específicos ligados à religião, à paz e ao sacrifício.
No centro da faixa branca, o Leão e Sol foi oficialmente consagrado como brasão nacional. Essa bandeira atravessou décadas e permaneceu vigente durante o reinado da dinastia Pahlavi, entre 1925 e 1979.
Durante esse período, a bandeira com o Leão e Sol passou a representar o projeto de um Irã moderno, nacionalista e centralizado. Ela esteve presente em eventos internacionais, documentos oficiais, moedas e edifícios públicos, tornando-se, para muitos iranianos, o símbolo máximo da identidade nacional pré-revolucionária.
A ruptura de 1979 e o fim do símbolo monárquico
Tudo mudou com a Revolução Islâmica de 1979. A queda do xá e a ascensão de um regime teocrático liderado por aiatolás exigiram uma ruptura simbólica completa com o passado imperial.
A bandeira do Leão e Sol passou a ser vista como um emblema do regime deposto e foi oficialmente banida. Inicialmente, o tricolor permaneceu sem brasão, até que, em 1980, a República Islâmica adotou um novo símbolo central.
Esse momento marcou não apenas uma troca de governo, mas uma redefinição profunda da identidade visual e ideológica do país.
A bandeira da República Islâmica e seus significados
A bandeira atual do Irã manteve as cores tradicionais, mas substituiu o Leão e Sol por um emblema abstrato de forte caráter religioso. Criado pelo designer Hamid Nadimi, o símbolo central combina quatro crescentes e uma espada vertical que, juntos, formam a palavra Allah em caligrafia estilizada.
Além disso, o desenho remete à forma de uma tulipa vermelha, símbolo do martírio na tradição persa e xiita. Cada elemento representa os Cinco Pilares do Islã, reforçando a natureza teocrática do Estado.
Outro detalhe importante é a repetição da frase “Allahu Akbar” ao longo das bordas da bandeira, escrita 22 vezes, em referência ao dia da vitória da Revolução Islâmica em 1979.
A nova bandeira não apenas representa o Estado, ela proclama sua ideologia.
Por que o Leão e Sol voltou aos protestos?
Décadas depois da Revolução, a bandeira da República Islâmica passou a ser associada, para muitos iranianos, à repressão, censura e estagnação econômica. Em contraste, o Leão e Sol ressurgiu como um símbolo de oposição, especialmente entre a diáspora iraniana e setores mais radicais dos protestos internos.
Inicialmente, movimentos como o protesto de 2009 optaram por usar apenas o tricolor sem símbolos, rejeitando tanto a teocracia quanto a monarquia. Mas, a partir de 2022 e com mais força em 2025 e 2026, houve uma mudança clara.
Manifestantes passaram a exibir explicitamente a bandeira monárquica, mesmo sabendo que isso configura crime dentro do Irã. O gesto não representa apenas nostalgia, mas um rompimento simbólico total com o regime atual.
O significado político da troca de bandeiras
Quando um manifestante troca a bandeira oficial pelo Leão e Sol, a mensagem é direta: rejeição à legitimidade da República Islâmica e afirmação de uma identidade iraniana anterior à teocracia.
Esse símbolo passou a funcionar como um estandarte unificador da oposição, mesmo entre grupos que não defendem necessariamente a restauração da monarquia. Para muitos, ele representa um Irã laico, soberano e conectado à sua história milenar, não ao regime atual.
A disputa chegou até ao ambiente digital, com episódios curiosos como a alteração temporária do emoji da bandeira do Irã em redes sociais, que passou a exibir o Leão e Sol, gerando constrangimento entre autoridades iranianas online.
Uma disputa que vai além da política
No fim das contas, a batalha entre as bandeiras do Irã é mais profunda do que uma simples escolha estética. Ela reflete dois projetos de país, duas leituras da história e duas visões de futuro.
Enquanto a bandeira atual afirma a continuidade da Revolução Islâmica, a antiga bandeira resgatada nos protestos aponta para um desejo de ruptura, liberdade e redefinição nacional.
Em tempos de crise, símbolos voltam a ter peso real. No Irã de hoje, as bandeiras falam tão alto quanto os gritos nas ruas.