O que é dosimetria? Entenda o PL que beneficia Bolsonaro

O que é dosimetria? Entenda o PL que beneficia Bolsonaro

Projeto aprovado na Câmara altera o cálculo de penas e afeta condenados por crimes contra a democracia.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

O que é dosimetria da pena e por que o termo tomou conta do noticiário?

Imagine entrar em uma sala de tribunal e ver o juiz diante de um enorme mosaico de leis, circunstâncias e provas. Cada peça precisa se encaixar de forma precisa para definir quanto tempo uma pessoa deve cumprir de pena. Essa construção complexa recebe um nome que ganhou destaque nos últimos dias: dosimetria.

A expressão se espalhou pelas redes e pelos noticiários após a aprovação do chamado PL da Dosimetria, votado em uma sessão tensa na Câmara dos Deputados. O texto altera diretamente a forma como penas são calculadas em crimes contra a democracia e pode mudar cenários importantes envolvendo condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro.

"A dosimetria é o processo que define a quantidade de pena aplicada ao condenado, seguindo etapas e critérios previstos em lei."

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A dosimetria é o processo que define a quantidade de pena aplicada ao condenado

 

O que é dosimetria da pena no Direito

No Direito Penal Brasileiro, a dosimetria funciona como uma metodologia. O juiz não escolhe uma pena ao acaso. Ele segue o sistema trifásico, que considera fatores como antecedentes, circunstâncias do crime, comportamento do réu e limites legais previstos.

É como ajustar o peso de uma balança. A pena pode aumentar ou diminuir conforme as características avaliadas em cada etapa, garantindo que a decisão final não seja nem arbitrária nem desproporcional.

Por que o PL da Dosimetria ganhou tanta atenção

O projeto aprovado na Câmara muda justamente esse cálculo. Hoje, o Supremo Tribunal Federal entende que crimes como golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito podem ser somados quando ocorrem ao mesmo tempo. Foi assim nos julgamentos dos réus de 8 de janeiro.

O novo PL altera esse entendimento.

"Quando dois crimes contra a democracia forem cometidos no mesmo contexto, as penas não serão mais somadas."

Em vez disso, entra em cena o chamado concurso formal de crimes. Nesse modelo, o juiz aplica apenas a pena do crime mais grave, acrescida de um percentual que varia de um sexto até a metade. Essa fração será definida caso a caso.

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O projeto aprovado na Câmara muda justamente esse cálculo – Foto de Hugo Motta por KEBEC NOGUEIRA/METRÓPOLES @kebecfotografo

 

Como o PL pode beneficiar Bolsonaro

O ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos e 3 meses por cinco crimes relacionados à tentativa de golpe após as eleições de 2022. Pelo entendimento atual do STF, cada delito é somado ao outro, o que aumenta significativamente o total de pena.

Com o PL, esse cálculo muda. Em vez de somar todos os crimes, aplica-se apenas a pena mais grave com acréscimos proporcionais. Segundo o relator Paulinho da Força, Bolsonaro poderia ter seu período em regime fechado reduzido para cerca de 2 anos e 4 meses, caso a proposta vire lei.

A votação foi expressiva: 291 votos a favor e 148 contra.

O que dizem os defensores e os críticos

A proposta segue agora para o Senado. Se aprovada, ainda dependerá da sanção do presidente. O relator afirma que a mudança não representa anistia e que os condenados continuarão a cumprir pena.

"Não tem anistia. As pessoas vão continuar pagando", declarou Paulinho da Força.

A defesa do projeto também argumenta que a regra atual pode levar a punições desproporcionais e que a nova lei evitaria somas exageradas, além de desencorajar futuros ataques às instituições.

Críticos, por outro lado, afirmam que a mudança pode enfraquecer a resposta penal a crimes graves contra a democracia.

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A proposta segue agora para o Senado. Se aprovada, ainda dependerá da sanção do presidente

 

Punições previstas na lei atual

Crimes contra a democracia possuem penas que variam dentro de faixas específicas.

• Ação de abolir violentamente o Estado Democrático de Direito: de 4 a 8 anos
• Golpe de Estado: de 4 a 12 anos

O PL não altera essas faixas, mas modifica como elas são combinadas quando ocorrem juntas.

E agora, o que acontece?

O Senado deve analisar o texto ainda este ano. Se aprovado, segue para o presidente, que pode sancionar totalmente ou vetar trechos específicos. Enquanto isso, a discussão continua forte no país, movimentando juristas, políticos e a opinião pública.

E você? Já imaginou como pequenas mudanças na matemática jurídica podem transformar completamente o resultado de uma condenação?

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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