O que acontece com o corpo após 36 horas sem comer?

O que acontece com o corpo após 36 horas sem comer?

Jejum não é o mesmo que restrição calórica. Como o metabolismo reage à falta de comida?


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Jejum prolongado pode ativar mecanismos internos, mas exige cautela

Imagine acordar, passar o dia inteiro sem café da manhã, sem almoço, sem jantar… e ainda atravessar a madrugada sem colocar nada no prato. A ideia parece extrema, quase impensável para muita gente. Ainda assim, períodos de jejum de até 36 horas vêm ganhando espaço em conversas sobre saúde, bem-estar e até reality shows, despertando curiosidade e controvérsia.

Mas o que realmente acontece no corpo quando ficamos tanto tempo sem comer? A ciência mostra que o organismo é mais adaptável do que parece, embora essa prática esteja longe de ser inofensiva ou indicada para todos.

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Períodos de jejum de até 36 horas vêm ganhando espaço em conversas sobre saúde, bem-estar e até reality shows

Por que o jejum de 36 horas chama tanta atenção?

O tema voltou aos holofotes recentemente após participantes de programas de TV comentarem sobre longos períodos sem alimentação e os efeitos percebidos no corpo e na mente. Apesar de soar como uma moda recente, o jejum prolongado já foi analisado em estudos científicos, especialmente no Reino Unido.

Pesquisas conduzidas por Adam Collins, da Universidade de Surrey, ajudaram a entender como o organismo reage quando passa mais de um dia inteiro sem ingerir alimentos. Segundo o pesquisador, esse tipo de jejum é uma versão mais rígida de estratégias alimentares que restringem calorias em dias específicos da semana.

Jejum e restrição calórica são a mesma coisa?

Apesar de frequentemente confundidos, jejum e restrição calórica não são exatamente iguais. Na restrição calórica, a pessoa reduz a ingestão diária de energia de forma contínua. Já no jejum prolongado, há um intervalo completo sem alimentação, seguido do retorno à dieta habitual.

Essa diferença muda bastante a resposta do organismo. Quando o jejum ultrapassa 24 horas, o corpo começa a esgotar suas reservas imediatas de glicose e passa a depender cada vez mais da gordura corporal como fonte de energia. Esse processo é acompanhado por mudanças hormonais e metabólicas relevantes.

Quanto mais prolongado o jejum, maior é a transição do corpo da queima de carboidratos para a queima de gordura.

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Jejum e restrição calórica não são exatamente iguais

O que muda no metabolismo após 36 horas sem comer?

Estudos comparando pessoas em jejum de 36 horas com indivíduos em dietas convencionais mostram um padrão claro: o organismo se torna mais eficiente em alternar entre diferentes fontes de energia. Esse fenômeno é conhecido como flexibilidade metabólica.

Segundo Collins, essa adaptação pode ajudar o corpo a lidar melhor com situações de excesso alimentar, sedentarismo ou estresse. Além disso, o jejum estimula a produção de cetonas, substâncias associadas à redução do apetite e, em alguns casos, a uma sensação de maior clareza mental.

Outro processo frequentemente citado é a autofagia, um mecanismo de “reciclagem celular” em que células degradam componentes danificados para reaproveitamento. Embora esse efeito seja bem documentado em estudos com animais, ainda não há consenso sobre sua magnitude em humanos submetidos a jejuns prolongados.

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O jejum estimula a produção de cetonas, substâncias associadas à redução do apetite e, em alguns casos, a uma sensação de maior clareza mental.

Existem benefícios comprovados?

A ciência ainda é cautelosa. Não há evidências sólidas de que jejuns de 36 horas tragam benefícios extraordinários à saúde a curto prazo. O que se observa com mais consistência é a perda de gordura corporal, que pode vir acompanhada, também, de perda de massa muscular.

Além disso, quanto mais rigoroso o jejum, maior tende a ser uma intolerância temporária à glicose. Em algumas pessoas, isso pode ser revertido rapidamente após a alimentação. Em outras, especialmente sem acompanhamento, pode gerar desconfortos importantes.

O corpo se adapta, mas isso não significa que o processo seja neutro ou isento de riscos.

E a mente, reage como?

Os efeitos cognitivos do jejum prolongado ainda dividem especialistas. Algumas pessoas relatam sensação de foco e leveza mental, possivelmente associada à produção de cetonas. No entanto, estudos indicam que, mesmo após 36 horas sem comer, os níveis dessas substâncias não são tão elevados a ponto de garantir ganhos cognitivos consistentes.

Além disso, a falta de energia pode reduzir a disposição física, tornando atividades intensas ou exercícios inadequados durante o período de jejum.

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Algumas pessoas relatam sensação de foco e leveza mental, possivelmente associada à produção de cetonas

Quem não deve tentar esse tipo de jejum?

Nem todo organismo responde da mesma forma. Pessoas com histórico de transtornos alimentares, gestantes e indivíduos com condições metabólicas específicas não devem adotar jejuns prolongados. Pré-diabéticos e pessoas com alterações na glicemia precisam de acompanhamento profissional rigoroso, já que as oscilações temporárias de açúcar no sangue podem ser perigosas.

Outro ponto crucial é o retorno à alimentação. Compensar o período de jejum com episódios de compulsão alimentar pode anular possíveis benefícios e sobrecarregar o organismo.

Vale a pena ficar 36 horas sem comer?

A resposta curta é: depende. O corpo humano consegue se adaptar a períodos relativamente longos sem comida, acionando mecanismos internos de sobrevivência. No entanto, isso não transforma o jejum prolongado em uma prática universalmente saudável ou recomendada.

Informação, acompanhamento profissional e atenção aos próprios limites são essenciais. O que funciona para alguns pode ser prejudicial para outros, especialmente quando saúde física e mental estão em jogo.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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