O Fim do "Todes"? Entenda a proibição da linguagem neutra

O Fim do "Todes"? Entenda a proibição da linguagem neutra

O Presidente Sanciona Lei que Veda Flexões Inclusivas e Foca em 'Linguagem Simples': O que Muda no Comunicação Oficial?


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine que a nossa língua portuguesa, esse organismo vivo e complexo que herdamos, é como um vasto jardim. Há flores centenárias, respeitadas por todos, e há mudas que alguns gostariam de plantar para expandir a diversidade. Pois bem, um decreto presidencial acaba de colocar uma cerca em uma parte desse jardim, especificamente no que tange à comunicação oficial do governo.

A pergunta que ecoa é: A busca por uma linguagem mais inclusiva, com termos como "todes" e "elu," encontrou seu limite na caneta do presidente?

Sim, e a resposta está no Diário Oficial da União desta semana.

"Fim
Presidente Sanciona Lei que Veda Flexões Inclusivas e Foca em 'Linguagem Simples'

 

Proibição Total: O "Não" às Novas Flexões

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou uma lei que estabelece, de forma categórica, a proibição do uso de linguagem neutra na administração pública de todo o país.

A essência da decisão reside em um trecho que veda o uso de "novas formas de flexão de gênero e de número das palavras da língua portuguesa". Essa vedação é baseada na contrariedade às regras gramaticais consolidadas, ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) e ao Acordo Ortográfico vigente.

“Não usar novas formas de flexão de gênero e de número das palavras da língua portuguesa, em contrariedade às regras gramaticais consolidadas, ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) e ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa…"

— Trecho da Política Nacional de Linguagem Simples

"O
Em qualquer órgão oficial a comunicação deve se ater à norma padrão.

 

O Alcance da Regra: Quem Será Afetado?

Não se engane: a lei não é um raio que cai apenas sobre a União. Ela tem um alcance gigantesco, atingindo a administração pública direta e indireta de todos os Poderes dos estados, do Distrito Federal e dos municípios. Isso significa que, em qualquer órgão oficial, a comunicação deve se ater à norma padrão.

O Que a Lei Realmente Proíbe?

Os termos mais visados pela nova legislação são justamente aqueles que compõem a chamada "linguagem neutra" ou "não binária," como "todes" e "elu".

Esses termos são ferramentas linguísticas adotadas, geralmente, por parte da comunidade LGBTQIA+ que busca formas de comunicação que não se restrinjam ao binarismo de gênero (masculino/feminino). A metodologia usual é substituir os marcadores de gênero por vogais como "e" ou "u".

Apesar de ser vista por muitos grupos sociais como um caminho para maior inclusão e representatividade, a linguagem neutra, até o momento, não está prevista na norma oficial da língua portuguesa. É essa a premissa central que sustenta a nova lei.

✨ O Pilar Oculto: A Política de Linguagem Simples

É crucial entender que a proibição da linguagem neutra é, na verdade, um ponto dentro de um contexto maior: a Política Nacional de Linguagem Simples. O projeto, de autoria da deputada federal Érika Kokay (PT-DF) e aprovado no Congresso em março, vai além das questões de gênero.

O principal objetivo dessa política é transformar a comunicação burocrática em algo cristalino, garantindo que o cidadão comum possa "encontrar, entender e usar as informações publicadas" pelo governo. A ideia é derrubar o "muro de palavras" que muitas vezes separa o cidadão da informação pública.

Os pilares da Linguagem Simples incluem:

  • Promover a transparência e o acesso claro à informação.

  • Facilitar a participação e o controle social da gestão pública.

  • Tornar a compreensão da comunicação acessível para pessoas com deficiência.

  • Determinar que, para comunidades indígenas, a comunicação oficial deve incluir, sempre que possível, uma versão na língua dos destinatários.

Essa é uma das grandes ironias da lei: ao mesmo tempo que limita as formas de expressão de gênero para manter a "simplicidade gramatical", ela avança na simplificação e inclusão em outros aspectos.

O Veto Presidencial

Um detalhe importante é que Lula vetou um trecho da lei. Ele derrubou o artigo que obrigava os órgãos públicos a designar um servidor exclusivo para o tratamento da informação em Linguagem Simples. A justificativa foi técnica: a prerrogativa de criar funções na administração pública é exclusiva do chefe do Executivo, tornando o dispositivo inconstitucional.

Reportar um erro

Encontrou um erro neste conteúdo? Descreva o problema abaixo e nossa equipe verificará.

Reportar-erro

Compartilhar

Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

Saiba mais

Veja também