Nova York adota atendentes remotos direto das Filipinas

Nova York adota atendentes remotos direto das Filipinas

Tecnologia, economia e controvérsia: o novo modelo de atendimento que divide opiniões.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Restaurantes de Nova York contratam caixas virtuais das Filipinas — e isso pode mudar o futuro do atendimento

Imagine entrar em um restaurante em Nova York e ser recebido com um sorriso caloroso… vindo de alguém a meio mundo de distância. Essa é a nova realidade em diversos estabelecimentos da cidade, onde caixas e recepcionistas filipinos atendem os clientes por chamadas de vídeo, direto de suas casas do outro lado do planeta.

A experiência curiosa de ser atendido por vídeo

No restaurante Sansan Chicken, no bairro do Queens, a caixa sorri pela tela e recomenda o famoso sanduíche de frango frito. Às vezes, o áudio falha, e a imagem trava. Afinal, a conexão vem das Filipinas, a mais de 13 mil quilômetros dali.
Essa funcionária se chama Romy (sobrenome omitido), uma das 12 assistentes virtuais que trabalham remotamente em restaurantes nova-iorquinos, como se estivessem ali, só que dentro de uma tela.

“Você ouve um ‘olá’ e pensa: o que está acontecendo aqui?”, contou uma cliente surpresa ao se deparar com a atendente virtual no saguão.

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Cliente interage com recepcionista remota — Foto: Victor J. Blue/NYT

A empresa por trás da ideia

A inovação vem da startup Happy Cashier, fundada por Chi Zhang, um empreendedor de 34 anos que busca reduzir os altos custos da indústria de restaurantes. Zhang acredita que o modelo pode salvar pequenos negócios afetados pela inflação e pelos aluguéis exorbitantes de Nova York. Seu sistema permite que trabalhadores nas Filipinas façam o papel de caixas e recepcionistas via Zoom, com economia de até 80% nos custos por hora.

O salário pago aos filipinos é de cerca de R$ 16,35 por hora, muito abaixo do mínimo nova-iorquino (R$ 87). A diferença acende o debate sobre precarização e exploração de mão de obra estrangeira, ainda que o modelo seja legal, já que os funcionários estão fora da jurisdição trabalhista dos Estados Unidos.

A polêmica do “atendimento globalizado”

Para os empresários, o serviço é uma forma criativa de equilibrar as contas e manter as portas abertas. Já para sindicatos e ativistas trabalhistas, trata-se de uma terceirização disfarçada que ameaça empregos locais.

“Encontraram uma forma de exportar o trabalho, e isso é extremamente preocupante”, afirmou Teófilo Reyes, representante de um grupo de defesa dos trabalhadores em Nova York.

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Loja da SanSan Ramen que incorporou caixas remotos — Foto: Victor J. Blue/NYT

Quando a eficiência esbarra na experiência humana

Os assistentes virtuais não apenas recebem os clientes, mas também atendem ligações, gerenciam pedidos online e monitoram avaliações nas redes. Ainda assim, há limitações curiosas. Em um dos restaurantes, o caixa remoto não conseguiu ajudar um cliente a tirar o queijo de um sanduíche. O pedido precisou ser feito pessoalmente no balcão ao lado, revelando que nem toda interação pode ser substituída por uma chamada de vídeo.

Apesar disso, alguns gerentes aprovam o sistema, destacando que ele libera espaço físico e reduz custos, permitindo investir em novas áreas, como cafeterias ou quiosques complementares.

Um retrato do futuro do trabalho?

A Happy Cashier planeja expandir o serviço para mais de 100 restaurantes até o fim do ano. O fenômeno pode marcar o início de uma nova era na relação entre tecnologia, globalização e atendimento ao cliente.

Em um mundo cada vez mais conectado, talvez a pergunta que fique seja:

“Você se importaria se o sorriso que te atende no caixa viesse de outro continente?”

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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