Negócio da guerra gera lucro de US$ 28 bi a bilionários

Negócio da guerra gera lucro de US$ 28 bi a bilionários

Bilionários da defesa ganham cada vez mais enquanto o mundo perde


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Quando uma guerra começa, o que muita gente enxerga primeiro são as imagens mais óbvias: explosões, sirenes, cidades em alerta, famílias fugindo e líderes trocando ameaças. Mas existe uma camada menos visível e igualmente poderosa correndo por trás de tudo isso. É a camada dos contratos, das bolsas de valores, dos acionistas e das fortunas que crescem em silêncio. O nome disso, por mais incômodo que seja, é negócio da guerra.

O conflito com o Irã recolocou esse tema no centro do debate internacional. Enquanto o mundo acompanha ataques, gastos militares e riscos de escalada regional, uma análise repercutida no texto enviado por você mostra que 14 indivíduos e famílias ligados ao setor de defesa adicionaram mais de US$ 28 bilhões às suas fortunas em menos de três meses. O dado ajuda a escancarar uma realidade desconfortável: em muitos casos, aquilo que representa tragédia para milhões pode significar oportunidade para poucos.

Esse é um dos lados mais frios do capitalismo contemporâneo. A guerra destrói cidades, interrompe rotas, pressiona a economia global, encarece combustíveis e coloca vidas em risco. Ao mesmo tempo, ela acelera encomendas de mísseis, drones, sistemas de guerra eletrônica, radares, munições e blindagens. O negócio da guerra cresce exatamente quando a paz encolhe.

As despesas militares dos EUA apenas nos primeiros dias da guerra chegaram a US$ 11,3 bilhões

As despesas militares dos EUA apenas nos primeiros dias da guerra chegaram a US$ 11,3 bilhões

O que é o negócio da guerra?

Falar em negócio da guerra é falar da indústria de defesa e de tudo o que gira ao redor dela. Não se trata apenas de tanques, caças e bombas. Esse universo inclui sistemas de comunicação militar, sensores, motores de foguete, drones não tripulados, softwares de vigilância, detonadores, proteção balística, logística, inteligência e manutenção. Em resumo, é uma cadeia gigantesca que movimenta governos, empresas privadas e investidores.

O texto mostra que, só nos primeiros seis dias de hostilidades com o Irã, os gastos militares dos Estados Unidos chegaram a US$ 11,3 bilhões. Além disso, o Pentágono teria solicitado US$ 200 bilhões adicionais para financiar a guerra. Israel também ampliou seus gastos com defesa, e os países da União Europeia vêm elevando suas alocações militares desde a invasão da Ucrânia em 2022.

Isso revela como o negócio da guerra não depende apenas de um conflito isolado. Ele é fortalecido por uma lógica de rearmamento contínuo. Quando um país entra em guerra, outros reagem, reforçam arsenais, atualizam tecnologias e fecham novos contratos. É um efeito dominó em que o medo também vira mercado.

O negócio da guerra transforma tensão geopolítica em valorização de ações, expansão de contratos e crescimento de fortunas.

Como o conflito com o Irã turbina o negócio da guerra

O caso recente ajuda a entender essa engrenagem de forma bem concreta. Segundo o material enviado, ações de fabricantes de mísseis, drones, sistemas eletrônicos de combate e outros equipamentos militares dispararam em 2026. Um índice da Bloomberg de empresas globais de defesa subiu 18% no ano, enquanto o S&P 500 caiu 3,2% no mesmo período. Ou seja, enquanto parte do mercado sofria, o negócio da guerra avançava.

Esse contraste impressiona porque mostra que, em tempos de conflito, a indústria bélica pode funcionar quase como um setor anticrise. Se o mundo fica mais perigoso, a demanda por defesa tende a aumentar. E isso atrai investidores, empurra o preço das ações para cima e engorda patrimônios de quem já está posicionado nesse mercado.

Não é coincidência que empresas especializadas em foguetes, drones e munições tenham virado destaque. A guerra moderna exige velocidade, precisão, vigilância constante e capacidade tecnológica. O velho campo de batalha mudou. Hoje, o negócio da guerra também passa por inteligência eletrônica, automação e sistemas não tripulados.

Hoje, o negócio da guerra também passa por inteligência eletrônica, automação e sistemas não tripulados

Hoje, o negócio da guerra também passa por inteligência eletrônica, automação e sistemas não tripulados

Quem está lucrando com o negócio da guerra?

Um dos pontos mais fortes do texto é mostrar que esse enriquecimento não ficou concentrado apenas nas gigantes tradicionais dos Estados Unidos. Há fortunas crescendo também em Israel, França, Coreia do Sul, Índia e República Tcheca. Em outras palavras, o negócio da guerra é global.

Entre os casos citados está a família Federmann, controladora da Elbit Systems, em Israel, cuja participação teve valorização bilionária. A empresa atua em áreas como satélites, drones e munições para tanques. Outro destaque é Michal Strnad, da tcheca CSG, que se tornou um dos nomes mais ricos do setor após a abertura de capital da companhia. A família Dassault, ligada à fabricante francesa de caças, também viu sua fortuna crescer. Na Ásia, grupos da Coreia do Sul e da Índia aparecem entre os grandes beneficiados pela escalada do setor.

Nos Estados Unidos, mesmo quando os maiores grupos são dominados por investidores institucionais, executivos e acionistas relevantes também se beneficiam da valorização das ações e de opções de compra. Isso mostra que o negócio da guerra não é um fenômeno abstrato. Ele tem nomes, sobrenomes, conselhos administrativos, holdings e relatórios financeiros.

Réplica do drone XQ-58A Valkyrie da Kratos

Réplica do drone XQ-58A Valkyrie da Kratos

Guerra virou oportunidade de mercado?

Essa é a pergunta que incomoda. E a resposta, olhando friamente para os números, parece ser sim. Pelo menos para uma parte do sistema econômico. A alta demanda por rearmamento transforma crises geopolíticas em impulso comercial. Fabricar defesa passa a ser não apenas uma necessidade estatal, mas um nicho altamente lucrativo para empresas listadas em bolsa.

Isso não significa que toda empresa do setor deseje guerra no sentido literal. Mas significa que a estrutura de mercado recompensa a escalada militar com valorização financeira. E aí está o ponto mais perturbador do negócio da guerra: quanto maior a tensão, maior pode ser o apetite por investimento no setor.

Em um mundo ideal, tecnologia e capital estariam sendo mobilizados para resolver problemas como crise climática, fome, saneamento, saúde pública e educação. Na prática, uma parcela gigantesca de recursos continua indo para a produção de ferramentas de destruição ou dissuasão.

Enquanto civis contam mortos, deslocados e prejuízos, o negócio da guerra conta contratos, ações em alta e patrimônio acumulado.

Por que isso importa para quem está longe do front?

Porque ninguém está totalmente longe. Mesmo quem vive a milhares de quilômetros de um conflito acaba sentindo seus efeitos. O texto aponta que guerras recentes já têm redesenhado mercados de energia, pressionado combustíveis, alterado tarifas aéreas, afetado viagens globais e até influenciado preços de alimentos.

Ou seja, o negócio da guerra não impacta apenas investidores ou governos. Ele mexe com inflação, logística, abastecimento, contas públicas e custo de vida. Uma guerra pode enriquecer alguns acionistas, mas também pode encarecer o diesel, bagunçar cadeias globais e aumentar a insegurança econômica de milhões de pessoas que nunca ouviram falar das empresas envolvidas.

Além disso, existe uma questão ética. Quando o mercado passa a premiar a escalada militar, cria-se um ambiente em que a paz tende a ser menos rentável do que a tensão. Isso não quer dizer que guerras aconteçam apenas por dinheiro, claro. As causas são políticas, territoriais, religiosas, estratégicas e históricas. Mas o dinheiro que circula em torno delas ajuda a manter viva uma engrenagem poderosíssima.

O negócio da guerra é um retrato do nosso tempo

Talvez uma das partes mais inquietantes dessa discussão seja perceber o quanto o negócio da guerra combina com o espírito do nosso tempo. Vivemos numa era em que quase tudo pode ser transformado em ativo financeiro: dados, atenção, medo, crise e até destruição. A guerra, nesse cenário, deixa de ser apenas uma tragédia política e humanitária. Ela também se torna uma oportunidade para setores específicos do mercado.

Isso não é exatamente novidade histórica. Guerras sempre movimentaram indústrias e enriqueceram fornecedores. Mas a velocidade com que isso acontece hoje, impulsionada por bolsas globais, tecnologia militar avançada e cadeias transnacionais de produção, torna tudo mais rápido, maior e mais visível.

O que o conflito com o Irã escancarou foi justamente isso: por trás de cada manchete sobre mísseis e bombardeios, existe uma outra manchete, mais silenciosa, escrita em gráficos de ações, relatórios de investidores e fortunas em expansão.

E talvez a pergunta mais dura não seja apenas quem lucra. Talvez seja outra: que tipo de civilização aceita com tanta naturalidade que o sofrimento coletivo vire combustível para enriquecimento privado?

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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