Quando matar a fome não é o primeiro passo
Imagine passar dias perdido na mata, sem comida, enfrentando frio, medo e exaustão. O resgate finalmente acontece. A cena parece óbvia: água, abraço e um prato cheio. Mas, em alguns casos, comer imediatamente pode ser o maior risco de todos.
Foi exatamente isso que chamou a atenção no caso do jovem encontrado após cinco dias desaparecido no Pico Paraná. Apesar do instinto natural de alimentá-lo, os socorristas precisaram conter essa reação. O motivo tem nome, explicação médica e consequências graves: síndrome de realimentação.
Em determinadas situações, voltar a comer rápido demais pode colocar a vida em risco.
O que é a síndrome de realimentação?
A síndrome de realimentação é uma condição metabólica grave que pode ocorrer quando uma pessoa volta a se alimentar de forma brusca após um período prolongado de jejum ou desnutrição. Ela é mais comum do que parece em casos de desaparecimento, resgates, transtornos alimentares e situações extremas de privação.
Durante dias sem comida, o corpo entra em modo de sobrevivência. A produção de insulina diminui, e o organismo passa a usar gordura e proteínas musculares como principal fonte de energia. Esse processo mantém a pessoa viva, mas altera profundamente o equilíbrio químico do corpo.
O problema surge quando a alimentação retorna de forma repentina.
Por que o corpo não aceita comida de imediato?
Ao ingerir alimentos, especialmente ricos em carboidratos, o organismo libera grandes quantidades de insulina. Esse pico faz com que minerais essenciais, como fósforo, potássio e magnésio, sejam puxados do sangue para dentro das células.
Essa queda abrupta de eletrólitos na corrente sanguínea pode provocar sintomas sérios, como fraqueza intensa, confusão mental, dificuldade respiratória e arritmias cardíacas. Em casos extremos, pode evoluir para falência cardíaca, coma e morte.
O mais perigoso é que os sinais nem sempre aparecem na hora.
Os sintomas podem surgir entre 24 e 72 horas após a realimentação, quando a pessoa aparentemente já parece fora de perigo.
Quem corre mais risco de desenvolver a síndrome?
Segundo especialistas, o risco aumenta significativamente em pessoas que ficaram entre cinco e sete dias sem se alimentar, como no caso do jovem resgatado no Paraná. Quanto maior o tempo de jejum, maior a adaptação metabólica do corpo e mais delicada precisa ser a retomada da alimentação.
A síndrome também pode afetar idosos, pessoas hospitalizadas, pacientes com distúrbios alimentares ou indivíduos em situações de extrema pobreza e insegurança alimentar.
Por isso, o protocolo médico é sempre cauteloso.
O que aconteceu no caso do jovem no Pico Paraná?
O jovem desapareceu durante uma trilha no Pico Paraná, no Réveillon. Após um desentendimento com a companheira de caminhada, ele seguiu sozinho e acabou se perdendo. Foram cinco dias de mata fechada, sem comida adequada, caminhando cerca de 20 quilômetros até a região de Cacatu, em Antonina.
No resgate, ele apresentava escoriações, hematomas, perda de equipamentos e sinais claros de exaustão. Apesar disso, relatou estar consciente e orientado. Ainda assim, não pôde se alimentar imediatamente, justamente para evitar a síndrome de realimentação.
O cuidado não foi excesso de zelo. Foi medida de sobrevivência.
O que fazer ao encontrar alguém há dias sem comer?
Em situações assim, a ajuda imediata pode, paradoxalmente, causar danos se não for bem orientada. Especialistas recomendam seguir alguns cuidados básicos até a chegada do atendimento médico.
O que NÃO fazer
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Não oferecer refeições completas
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Não dar chocolates, pães, massas ou alimentos ricos em açúcar
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Não insistir para que a pessoa “coma para recuperar forças”
O que FAZER
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Oferecer água em pequenos goles, apenas para hidratação
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Avisar claramente à equipe de resgate há quantos dias a pessoa está sem comer
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Encaminhar ao hospital, mesmo que a pessoa pareça bem
A realimentação correta deve ser feita de forma progressiva e supervisionada, geralmente começando com líquidos e monitoramento constante dos eletrólitos.
Por que esse tema merece atenção?
Casos como esse mostram que o corpo humano é resiliente, mas também extremamente sensível a mudanças bruscas. A síndrome de realimentação é pouco conhecida fora do meio médico, mas pode fazer a diferença entre a recuperação e uma tragédia evitável.
Entender esse processo não é apenas curiosidade científica. É informação que pode salvar vidas.