Quando até um chinelo vira motivo de disputa
Você acorda, coloca os pés no chão e calça um par de Havaianas. Um gesto cotidiano, quase automático. Mas nos últimos dias, esse simples ato ganhou uma camada inesperada de tensão política. Uma nova campanha da marca transformou um slogan aparentemente inofensivo em combustível para mais um episódio da polarização brasileira.
A propaganda, estrelada pela atriz Fernanda Torres, passou a ser alvo de críticas e boicotes promovidos por políticos e militantes ligados à direita, especialmente ao bolsonarismo. O motivo? Uma frase interpretada como provocação ideológica, ainda que o conteúdo da peça publicitária não mencione política de forma direta.
Em um país polarizado, até mensagens neutras podem ser lidas como posicionamento político.
O que diz a propaganda das Havaianas?
Na campanha, Fernanda Torres sugere que as pessoas não comecem o ano apenas com o “pé direito”. Em seguida, amplia o sentido da mensagem, desejando que o público comece o novo ciclo “com os dois pés”: na estrada, na porta, na jaca ou onde quiser. A fala segue um tom motivacional, típico de campanhas de virada de ano, sem referências explícitas a partidos, ideologias ou figuras políticas.
Ainda assim, o trecho inicial foi suficiente para gerar interpretações simbólicas. Para setores da direita, a expressão teria sido usada como ironia ou crítica velada, o que desencadeou reações públicas nas redes sociais.
O boicote nas redes e a reação política
Parlamentares como Nikolas Ferreira e Bia Kicis, ambos do PL, usaram suas redes sociais para incentivar o boicote à marca. Em uma das manifestações mais simbólicas, Kicis publicou um vídeo jogando um par de Havaianas no lixo, gesto que rapidamente viralizou.
A narrativa adotada por esses grupos sustenta que a marca estaria alinhada a um campo político oposto, mesmo sem declarações oficiais ou posicionamentos explícitos da empresa nesse sentido. O episódio mostra como o consumo também passou a ser usado como ferramenta de afirmação ideológica.
Por que Fernanda Torres está no centro da polêmica?
A escolha da atriz como rosto da campanha ajudou a intensificar a reação. Desde o lançamento e a repercussão internacional do filme “Ainda Estou Aqui”, que aborda crimes cometidos durante a ditadura militar brasileira, Fernanda Torres passou a ser associada, por setores da direita, a uma postura crítica ao regime de 1964 a 1985.
Como esse período histórico é frequentemente defendido ou relativizado por grupos bolsonaristas, qualquer aparição pública da atriz tende a ser interpretada sob um filtro político. Assim, a propaganda das Havaianas acabou sendo lida menos como publicidade e mais como manifestação simbólica.
Na lógica da guerra cultural, quem aparece também comunica, mesmo quando não diz nada.
Consumo, cultura e polarização
O caso das Havaianas não é isolado. Nos últimos anos, marcas, artistas e campanhas publicitárias passaram a ocupar um espaço delicado entre comunicação comercial e disputa ideológica. Em um ambiente altamente polarizado, empresas se veem pressionadas por interpretações que extrapolam o conteúdo original de suas mensagens.
No fim, a propaganda segue no ar, a marca não alterou sua campanha e o debate continua circulando nas redes sociais. O episódio revela menos sobre chinelos ou slogans e mais sobre como o Brasil passou a enxergar símbolos cotidianos como bandeiras políticas.