Empresa pode congelar seu corpo após a morte por R$1,2 milhão

Empresa pode congelar seu corpo após a morte por R$1,2 milhão

Entenda como funciona a criopreservação humana na prática.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine receber a notícia de que alguém morreu e, em vez de um funeral tradicional, uma equipe médica correr contra o tempo para resfriar o corpo, preservar o cérebro e transportar tudo para um laboratório subterrâneo na Suíça. Parece cena de série futurista, mas essa é justamente a proposta de uma empresa europeia que decidiu transformar uma das maiores obsessões humanas em negócio: congelar seu corpo após a morte.

A ideia parece absurda para muita gente. Para outras, soa como uma última tentativa racional diante do desconhecido. Afinal, se a ciência do presente ainda não consegue reverter a morte, por que não preservar o corpo e deixar a questão para a ciência do futuro? É exatamente nessa brecha entre o impossível de hoje e a esperança de amanhã que esse mercado cresce.

A empresa Tomorrow Bio, cofundada pelo brasileiro Fernando Azevedo Pinheiro, oferece a clientes na Europa a possibilidade de congelar seu corpo após a morte por cerca de 200 mil euros, algo em torno de R$ 1,2 milhão. Há ainda a opção mais “econômica”, digamos assim, para quem quer preservar apenas o cérebro. O objetivo não é prometer milagre, mas manter o organismo em condições criogênicas extremas para que, talvez um dia, tecnologias futuras consigam fazer o que hoje parece ficção científica.

Congelar seu corpo após a morte não significa voltar à vida. Significa apostar que o futuro pode saber fazer o que o presente ainda não sabe.

Na prática, congelar seu corpo após a morte significa passar por um processo chamado criopreservação

Na prática, congelar seu corpo após a morte significa passar por um processo chamado criopreservação

O que significa congelar seu corpo após a morte?

Na prática, congelar seu corpo após a morte significa passar por um processo chamado criopreservação. A proposta é impedir ou retardar drasticamente a decomposição do organismo depois da morte legal, usando temperaturas extremamente baixas e substâncias crioprotetoras para preservar tecidos e, principalmente, o cérebro.

Esse conceito não nasceu agora. Há décadas, empresas ligadas à criogenia defendem que manter um corpo preservado pode abrir uma possibilidade futura de reanimação ou recuperação de memórias, personalidade e consciência, caso a medicina avance o suficiente. O ponto é que isso continua sendo uma hipótese, não uma tecnologia disponível.

Ainda assim, a força simbólica dessa ideia é imensa. Congelar seu corpo após a morte mexe com tudo ao mesmo tempo: medo da morte, fé na tecnologia, desejo de continuidade e até uma certa recusa em aceitar que o fim pode ser definitivo.

Como funciona o processo para congelar seu corpo após a morte?

Segundo o material fornecido, a equipe da Tomorrow Bio costuma ser avisada com antecedência quando o cliente está em estado terminal ou sob risco iminente. Após a declaração de morte legal, a prioridade é agir rápido. O objetivo principal é preservar o cérebro antes que o tempo e a degradação celular avancem demais.

A empresa envia uma equipe médica em ambulâncias adaptadas, que funcionam como salas operatórias móveis. No local, o corpo começa a ser resfriado e recebe medicamentos específicos. Também é iniciado um suporte cardiopulmonar mecânico para manter a circulação e o fornecimento de oxigênio, mesmo após a parada natural.

Depois disso, entra uma etapa delicada: para congelar seu corpo após a morte sem destruir completamente as estruturas celulares, é preciso evitar a formação de cristais de gelo. Por isso, parte dos fluidos corporais é substituída por uma substância crioprotetora. Em seguida, o organismo é resfriado ainda mais até ser transportado para armazenamento permanente.

Onde ficam os corpos preservados?

Após o procedimento inicial, os pacientes são levados para uma instalação na Suíça, próxima de Zurique. Lá, ficam armazenados em grandes recipientes com nitrogênio líquido, em temperaturas criogênicas extremas. Segundo o texto base, o local é um laboratório subterrâneo, e cada cápsula metálica pode acomodar até quatro corpos ou oito cérebros.

A lógica por trás disso é simples e perturbadora ao mesmo tempo. Se a decomposição for interrompida e as estruturas mais importantes forem mantidas, então a pessoa estaria em uma espécie de pausa biológica radical. Não viva, claro. Mas também não inteiramente perdida para o tempo, segundo essa visão.

É por isso que congelar seu corpo após a morte não é vendido como fantasia pela empresa. É apresentado como uma tentativa técnica de preservar uma chance, por menor que ela seja.

Para alguns, congelar seu corpo após a morte é uma forma extrema de dizer: “ainda não desisti”

Para alguns, congelar seu corpo após a morte é uma forma extrema de dizer: “ainda não desisti”

Por que alguém pagaria para congelar seu corpo após a morte?

Talvez a pergunta mais curiosa não seja como isso funciona, mas por que alguém toparia. E a resposta passa menos pela ciência e mais pela condição humana.

Muita gente não compra a certeza de voltar. Compra a possibilidade de não desaparecer completamente. Para alguns, congelar seu corpo após a morte é uma forma extrema de dizer: “ainda não desisti”. Para outros, é quase um investimento emocional no desconhecido.

Segundo o texto, sete pessoas já foram criopreservadas, além de cinco animais de estimação, e outras 650 estavam na fila no momento da reportagem. Isso mostra que a proposta, por mais radical que pareça, já encontrou um público real.

No fundo, quem decide congelar seu corpo após a morte talvez não esteja comprando imortalidade. Está comprando tempo.

Existe chance real de “ressurreição”?

Aqui entra a parte mais importante: não há garantia nenhuma. A própria empresa informa aos clientes que não promete ressuscitar ninguém. O que existe é uma aposta em avanços futuros da medicina, da nanotecnologia, da regeneração celular e, talvez, de áreas que ainda nem existem da forma como imaginamos hoje.

Ou seja, congelar seu corpo após a morte não é um caminho comprovado para voltar à vida. É uma tentativa de preservar estruturas biológicas até que o futuro, se algum dia puder, resolva o resto.

Isso muda completamente a forma de olhar para o serviço. Não é uma cura. Não é um tratamento. Não é uma ressurreição em andamento. É, antes de tudo, uma suspensão de esperança em nitrogênio líquido.

Quem está por trás desse mercado?

A Tomorrow Bio foi criada pelo brasileiro Fernando Azevedo Pinheiro e pelo médico alemão Emil Kendziorra. A empresa atua na Europa, enquanto os corpos são armazenados por uma organização parceira na Suíça. Parte do valor pago pelos clientes também vai para uma fundação voltada à manutenção de longo prazo desses pacientes criopreservados.

Essa estrutura existe porque congelar seu corpo após a morte não é um serviço pontual. Ele depende de décadas, talvez séculos, de manutenção, estabilidade financeira e confiança institucional. Não basta preservar o corpo. É preciso preservar também a estrutura que vai mantê-lo intacto.

O que essa ideia diz sobre nós?

Talvez o aspecto mais intrigante de tudo isso não esteja nos cilindros de aço, nem no nitrogênio líquido, nem nos milhões envolvidos. Está no fato de que há pessoas dispostas a pagar caro para transformar a morte em um problema adiado.

A possibilidade de congelar seu corpo após a morte mostra como a tecnologia moderna não mexe apenas com máquinas e diagnósticos. Ela mexe com as fronteiras simbólicas da existência. Onde termina a vida? O que é morte definitiva? Até que ponto o corpo pode ser tratado como algo “em espera”?

No fim das contas, talvez essa história não seja só sobre ciência. Talvez seja sobre o velho impulso humano de olhar para o abismo e responder com uma invenção.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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