Em qual ponto da história nós paramos de ter medo das IA's?

Em qual ponto da história nós paramos de ter medo das IA's?

De rostos falsos a presidentes em deepfake: em que momento paramos de ter medo da inteligência artificial e começamos a apenas dar risada?


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Do espanto ao hábito: a IA que virou cotidiano

Em 2016, sites como o ThisPersonDoesNotExist já exibiam rostos hiper-realistas criados com redes generativas adversariais (GAN), mostrando, a cada atualização da página, uma nova face de alguém que simplesmente não existe. Na época, aquilo parecia mágica de ficção científica, e muita gente saía da frente do computador com a sensação de ter visto o futuro em tempo real.

"Fotos
Fotos do website "thispersondoesnotexist"

 

Hoje, no entanto, a situação se inverteu: em vez de se perguntar se uma imagem é falsa, muita gente já assume que pode ser IA até que se prove o contrário. Essa normalização silenciosa mudou não só a forma como consumimos fotos e vídeos, mas também a relação de confiança que temos com qualquer coisa que aparece em uma tela.


A era do medo dos deepfakes

Talvez você nem lembre disso com o caos generalizado que a internet atual se encontra, mas antes do “boom” da IA generativa, os famosos deepfakes foram apresentados ao público quase como vilões definitivos da internet. A ideia de que qualquer pessoa poderia ser “colocada” em um vídeo incriminador causava pânico: de líderes políticos a pessoas anônimas, a ameaça parecia igualmente assustadora.

Relatórios de segurança digital passaram a alertar sobre o potencial dos deepfakes para fraude, chantagem, extorsão e até desinformação em contextos políticos e militares. Ao mesmo tempo, pesquisas em psicologia e comunicação mostravam que a simples exposição a deepfakes já era suficiente para aumentar o ceticismo em relação a novos conteúdos nas redes sociais.

Hoje, um aplicativo que te transforma em uma figura pública em tempo real é algo considerado engraçado, a mesma coisa em 2019 seria um caso de segurança pública.​

“Se alguém quiser, pode me incriminar com um deepfake.”
Essa frase já foi medo coletivo. Hoje, muitas vezes, virou apenas mais um meme na timeline. 

Hoje, ninguém mais pensa duas vezes antes de colocar a própria foto em uma IA para obter a foto "perfeita" para o Linkedin.


Quando o absurdo perdeu o impacto

Agora imagine a cena: alguém viaja no tempo, volta para 2016 e mostra um vídeo atual feito com IA em que um presidente aparece fazendo algo completamente absurdo. Naquele contexto, seria quase uma prova de que a realidade havia quebrado, um choque ético, político e tecnológico de proporções gigantescas.

Hoje, porém, a mesma figura pública pode compartilhar, rir e lucrar em cima de versões artificiais de si próprio em situações grotescas, escatológicas ou humilhantes, sem que isso passe de mais um conteúdo viral no meio de tantos outros. Em vez de escândalo, o efeito muitas vezes é entretenimento rápido, curtidas e compartilhamentos, um ciclo em que a surpresa dura poucos segundos antes de ser engolida pelo próximo vídeo recomendado.


A normalização: do alerta ao entretenimento

Pesquisas recentes mostram que, conforme as pessoas se acostumam com conteúdos gerados por IA, a percepção de autenticidade nem sempre cai de forma tão intensa quanto se imaginava. Em alguns contextos, usuários avaliam peças criadas por IA como tão críveis quanto as produzidas por humanos, principalmente quando a apresentação é envolvente e bem embalada.

Ao mesmo tempo, estudos em aceitação social da IA indicam que públicos mais jovens, acostumados a filtros, avatares e edições extremas, tendem a abraçar com mais facilidade imagens, vídeos e campanhas inteiras produzidas por sistemas generativos. A linha entre “real” e “fake” vai ficando menos importante do que outra palavra: engajamento.

Em algum ponto, deixamos de perguntar “isso é verdadeiro?”
E passamos a perguntar “isso é divertido, compartilhável, viral?”


Até onde isso é aceitável?

A questão que fica é incômoda: em que momento a humanidade deixou de se alarmar com o potencial destrutivo da IA e se rendeu ao fator diversão? Pesquisas em desinformação já apontam que deepfakes têm potencial para erodir a confiança em fotos e vídeos, tornando mais difícil distinguir prova real de manipulação, e, ainda assim, a maior parte dos usos visíveis hoje está em memes, filtros e entretenimento.

Se alguém disser que o limite do “aceitável” ficou para trás em 2022, não vai estar tão distante de alguns marcos simbólicos: foi mais ou menos nesse período que ferramentas de geração de imagem e texto explodiram em popularidade, passando de nicho técnico para brinquedo de massa. Entre riscos reais e risadas fáceis, o mundo parece ter decidido, muitas vezes, apertar o botão “curtir” antes de apertar o botão “questionar”.

Agora, com a velocidade que os modelos de IA avançam, onde vamos parar? Quando devemos falar chega?

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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