Cremação com água é legalizada na Escócia e gera debate

Cremação com água é legalizada na Escócia e gera debate

Nova alternativa funerária promete menor impacto ambiental. Entenda o método conhecido como aquamação.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Quando pensamos em rituais funerários, duas imagens costumam vir à mente: o sepultamento tradicional ou a cremação realizada em altas temperaturas. Durante décadas, essas foram praticamente as únicas opções disponíveis em grande parte do mundo.

Mas uma nova alternativa começou a ganhar espaço e recentemente entrou no centro das discussões internacionais. Trata-se da cremação com água, um método conhecido cientificamente como hidrólise alcalina e que acaba de ser legalizado em parte do Reino Unido.

A novidade despertou curiosidade não apenas por sua tecnologia, mas também por um motivo importante: seu potencial de reduzir o impacto ambiental dos funerais.

A cremação com água utiliza um processo químico que acelera a decomposição natural do corpo humano.

A técnica já existe há algum tempo e vem sendo adotada em diversos países, mas a recente decisão da Escócia de legalizar oficialmente o método reacendeu o debate sobre sustentabilidade até mesmo depois da morte.

A cremação com água utiliza um processo químico que acelera a decomposição natural do corpo humano

A cremação com água utiliza um processo químico que acelera a decomposição natural do corpo humano

O que é a cremação com água?

A cremação com água, também chamada de aquamação, é um procedimento que utiliza água aquecida e uma solução alcalina para acelerar o processo natural de decomposição do corpo humano.

Embora o nome possa causar estranheza à primeira vista, o princípio por trás do método é relativamente simples. Ele reproduz, de forma acelerada e controlada, o que ocorreria naturalmente ao longo de anos após o sepultamento.

Durante o procedimento, o corpo é colocado em um cilindro metálico pressurizado. Dentro desse equipamento existe uma mistura composta principalmente por água e uma pequena quantidade de solução alcalina, geralmente hidróxido de potássio.

A temperatura do sistema pode variar entre aproximadamente 90 °C e 150 °C, enquanto a pressão interna impede que o líquido entre em ebulição.

Ao longo de cerca de três a quatro horas, o calor, a pressão e a alcalinidade dissolvem os tecidos moles do corpo.

O que sobra após o processo?

Após a conclusão da hidrólise alcalina, restam apenas os ossos. Esses ossos são então secos e reduzidos a um pó fino.

Esse material é semelhante às cinzas resultantes da cremação tradicional. A família pode optar por guardar esse pó em uma urna, espalhá-lo em um local significativo ou realizar um enterro simbólico.

Existe, porém, uma diferença curiosa.

Enquanto as cinzas da cremação por fogo costumam ter coloração cinza, o resíduo da cremação com água geralmente apresenta um tom mais claro, muitas vezes branco, e costuma ter volume ligeiramente maior.

O resultado da hidrólise é um pó fino semelhante às cinzas, porém mais claro e ligeiramente mais volumoso.

Esse detalhe é frequentemente mencionado por especialistas que estudam o método.

O resultado da hidrólise é um pó fino semelhante às cinzas, porém mais claro e ligeiramente mais volumoso

O resultado da hidrólise é um pó fino semelhante às cinzas, porém mais claro e ligeiramente mais volumoso

Por que a cremação com água é considerada mais sustentável?

O principal motivo que tem impulsionado o interesse pela cremação com água é a questão ambiental.

A cremação tradicional exige fornos que operam em temperaturas extremamente altas, geralmente superiores a 800 °C. Esse processo demanda grande quantidade de energia e libera gases na atmosfera.

Estima-se que milhões de toneladas de dióxido de carbono sejam emitidas anualmente por crematórios em todo o mundo.

A aquamação, por outro lado, utiliza significativamente menos energia.

Estudos indicam que o processo pode consumir cerca de um sétimo da energia utilizada na cremação convencional, o que pode reduzir a pegada de carbono em até 75%.

Além disso, o método não libera diretamente poluentes atmosféricos como partículas finas ou vapor contendo metais pesados.

O líquido resultante do processo é descrito como uma solução estéril composta principalmente por sais e aminoácidos. Após tratamento adequado, ele pode ser descartado com segurança.

Como surgiu a legalização no Reino Unido?

A Escócia tornou-se a primeira parte do Reino Unido a permitir oficialmente a cremação com água.

A mudança é considerada a maior atualização na legislação funerária da região desde a legalização da cremação tradicional, ocorrida em 1902.

Autoridades locais afirmam que a decisão reflete a crescente demanda da população por práticas funerárias mais sustentáveis.

A ministra da Saúde Pública escocesa, Jenni Minto, destacou que as decisões relacionadas ao destino dos restos mortais são profundamente pessoais e muitas vezes influenciadas por valores familiares, culturais e religiosos.

Segundo ela, a nova regulamentação amplia as opções disponíveis para as famílias.

A Escócia tornou-se a primeira parte do Reino Unido a permitir oficialmente a cremação com água

A Escócia tornou-se a primeira parte do Reino Unido a permitir oficialmente a cremação com água

Onde mais a cremação com água já é usada?

Apesar de parecer uma novidade, a técnica já é utilizada em vários países.

Atualmente, a cremação com água é legal em:

  • mais de 20 estados dos Estados Unidos

  • Canadá

  • Austrália

  • Nova Zelândia

  • África do Sul

  • Irlanda

Um caso que ajudou a dar visibilidade internacional ao método foi o funeral do arcebispo sul africano Desmond Tutu, em 2022. Ele escolheu a aquamação como forma de reduzir o impacto ambiental de sua despedida.

Esse gesto chamou atenção global para o método.

Uma nova forma de pensar os rituais funerários

Ao longo da história, rituais funerários sempre refletiram valores culturais, religiosos e sociais de cada época.

Hoje, em um mundo cada vez mais preocupado com sustentabilidade, muitas pessoas começam a considerar também o impacto ambiental de suas escolhas.

A cremação com água surge nesse contexto como uma alternativa que tenta equilibrar tradição, tecnologia e preocupação ambiental.

Assim como aconteceu com a cremação tradicional há mais de um século, o método ainda gera debates e diferentes opiniões.

Mas uma coisa é certa.

As formas de despedida da humanidade continuam evoluindo com o tempo.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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