Coaches de TDAH atuam como psicólogos sem formação na área

Coaches de TDAH atuam como psicólogos sem formação na área

Estudo recente detalha o perfil desses instrutores não qualificados, cuja popularidade disparou após o período pandêmico.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine buscar ajuda para organizar a rotina, lidar com a distração constante ou entender melhor um diagnóstico recente. Em vez de um consultório médico ou terapêutico, você encontra alguém que promete soluções práticas, sessões semanais e acompanhamento contínuo, cobrando valores semelhantes aos de um psicólogo. A diferença é uma só, mas decisiva: não há formação em psicologia.

Esse é o cenário que impulsionou o crescimento acelerado dos chamados coaches de TDAH, uma categoria de profissionais que ganhou força especialmente após a pandemia de Covid-19 e hoje ocupa um espaço controverso entre a orientação pessoal e a intervenção clínica.

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Esse é o cenário que impulsionou o crescimento acelerado dos chamados coaches de TDAH


Quem são os coaches de TDAH e por que eles cresceram tanto?

Os coaches de TDAH se apresentam como orientadores especializados em ajudar pessoas com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade a lidar com desafios do dia a dia, como organização, produtividade, foco e metas pessoais. A proposta parece simples e atraente, especialmente em um mundo cada vez mais acelerado.

Uma investigação recente revelou que mais de 60% desses profissionais começaram a atuar após a pandemia, período marcado por uma explosão de diagnósticos, maior visibilidade do tema nas redes sociais e ampliação da telemedicina. Nesse contexto, muitas pessoas passaram a buscar alternativas fora do sistema tradicional de saúde.

Outro dado chama atenção: mais de 72% dos coaches afirmam suspeitar ou ter diagnóstico de TDAH. Na prática, isso significa que grande parte utiliza a própria experiência pessoal como base principal para orientar outras pessoas.

Quando a vivência pessoal substitui a formação técnica, o risco deixa de ser invisível.

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Quando a vivência pessoal substitui a formação técnica, o risco deixa de ser invisível.


Uma lacuna no sistema de saúde ajudou a abrir espaço

Nos Estados Unidos, a pesquisa mostrou que, em 2024, um em cada cinco adultos com TDAH e uma em cada sete crianças recorreram a coaches. Esse movimento não aconteceu por acaso.

Com o aumento expressivo dos diagnósticos, cerca de 40% das pessoas com TDAH ficaram sem acesso a tratamento adequado, seja por falta de profissionais, alto custo ou demora no atendimento. O coaching surgiu, então, como uma resposta rápida a uma demanda que o sistema de saúde não conseguiu absorver.

Curiosamente, aproximadamente 65% dos coaches relataram ter recebido indicações de profissionais da saúde, o que ajuda a legitimar ainda mais essa prática aos olhos do público leigo.

Onde começa o problema: falta de formação e supervisão

Apesar do discurso de apoio e organização prática, os dados revelam um cenário preocupante. Segundo o estudo, 89% dos coaches não possuíam qualquer experiência prévia em saúde mental, e 85% atuavam sem licença profissional.

Mais alarmante ainda: 62% afirmaram que sua única formação veio de outros coaches, e 90% trabalhavam sem qualquer tipo de supervisão clínica. Ou seja, trata-se de um campo que se autorregula, sem critérios claros, fiscalização ou parâmetros científicos sólidos.

Mesmo assim, muitos oferecem sessões semanais individuais, quase sempre online, abordando temas sensíveis como traumas, abuso de substâncias, crises emocionais e sofrimento psicológico profundo.

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89% dos coaches não possuíam qualquer experiência prévia em saúde mental


Quando coaching começa a se parecer com terapia

Na prática, a fronteira entre coaching e psicoterapia se torna cada vez mais nebulosa. As sessões seguem formatos semelhantes aos atendimentos clínicos, com escuta prolongada, discussão de emoções, histórico pessoal e estratégias para lidar com sofrimento psíquico.

A diferença central é que, para exercer legalmente a psicologia, é necessário formação universitária, estágio supervisionado e registro profissional junto ao Conselho Federal de Psicologia. Os coaches de TDAH, em sua maioria, não atendem a nenhum desses critérios.

Isso levanta riscos sérios, especialmente quando crianças e adolescentes fazem parte do público atendido.

Boa intenção não substitui preparo técnico quando a saúde mental está em jogo.

O que a ciência recomenda para o tratamento do TDAH

Atualmente, o tratamento mais indicado para o TDAH se baseia em um tripé bem estabelecido: educação sobre a condição, psicoterapia e, quando necessário, medicação.

Dentro da psicoterapia, a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é a abordagem mais recomendada, por apresentar evidências consistentes de eficácia. O coaching, quando utilizado, deve ser complementar, nunca substitutivo ao acompanhamento clínico.

O alerta dos conselhos profissionais

Em 2019, o Conselho Federal de Psicologia deixou claro que psicólogos registrados podem integrar ferramentas de coaching à prática terapêutica, desde que respeitados os limites éticos e técnicos da profissão.

Ao mesmo tempo, o órgão foi categórico ao afirmar que qualquer pessoa não registrada que utilize técnicas privativas da psicologia está cometendo exercício ilegal da profissão.

Essa distinção é fundamental para proteger pacientes, especialmente os mais vulneráveis.

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Qualquer pessoa não registrada que utilize técnicas privativas da psicologia está cometendo exercício ilegal da profissão


Um fenômeno em expansão, mas ainda cheio de perguntas

A pesquisa ajuda a iluminar um fenômeno recente, crescente e pouco regulamentado. No entanto, muitas questões permanecem em aberto: qual o impacto real dessas práticas a longo prazo? Que tipo de dano pode surgir da desinformação ou de diagnósticos reforçados sem critério clínico?

Enquanto essas respostas não chegam, o crescimento dos coaches de TDAH funciona como um retrato de algo maior: a urgência por cuidado em saúde mental em um mundo que oferece atalhos rápidos, mas nem sempre seguros.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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