Vacina brasileira contra crack e cocaína avança para testes humanos

Vacina brasileira contra crack e cocaína avança para testes humanos

A Calixcoca, desenvolvida pela UFMG, bloqueia os efeitos das drogas no cérebro e promete revolucionar o tratamento da dependência química no mundo.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Já imaginou tentar escapar de um labirinto onde as paredes mudam de lugar o tempo todo? Para milhares de pessoas que enfrentam a dependência do crack e da cocaína, a jornada da recuperação costuma ser exatamente assim. Mas e se a ciência pudesse construir um "escudo" invisível dentro do próprio corpo para ajudar os pacientes nessa batalha diária?

Essa é a premissa da Calixcoca, uma vacina revolucionária desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que está prestes a fazer história na medicina global.

"Âmpola
Âmpola da Calixcoca

A promessa da vacina brasileira

Recentemente, o ministro da Educação, Camilo Santana, anunciou que o Brasil dará um passo gigante: o projeto entrou na fase de preparação documental para iniciar os tão aguardados ensaios clínicos em seres humanos.

A tecnologia, que já possui patente nacional e internacional, deixou de ser apenas uma teoria promissora para se tornar uma solução palpável em estágio avançado.

"A Calixcoca tem o imenso potencial de ser a primeira vacina antidoping do mundo e revolucionar o tratamento da dependência química."

Como funciona esse escudo?

Diferente das abordagens tradicionais, pense na Calixcoca como um treinamento de elite para o seu sistema imunológico.

O coordenador do estudo, Frederico Duarte Garcia, explica que a vacina ensina o corpo a produzir anticorpos específicos. Quando a pessoa consome a droga, esses anticorpos entram em ação na corrente sanguínea como se fossem "seguranças de balada", agarrando-se às moléculas da substância.

O resultado dessa interceptação é fascinante: a droga fica "pesada" demais para atravessar a barreira que protege o cérebro. Sem conseguir chegar ao sistema nervoso central, o efeito psicoativo (o "barato" da droga) é simplesmente bloqueado.

Esse mecanismo foi pensado como uma ferramenta de apoio vital para pacientes que já estão em abstinência e buscam evitar recaídas.

Mais saúde e proteção desde o ventre

Os ensaios de laboratório já realizados não trouxeram apenas resultados positivos em relação ao vício; eles trouxeram esperança para o futuro.

Durante a fase pré-clínica, os cientistas notaram que camundongos fêmeas expostas à droga tiveram uma redução expressiva no número de abortos espontâneos após a vacinação.

Mais do que isso: os filhotes nasceram consideravelmente mais saudáveis. Para a saúde pública, isso representa uma luz no fim do túnel, especialmente para gestantes em situação de vulnerabilidade e bebês que, infelizmente, correm o risco de nascer prematuros ou já enfrentando a síndrome de abstinência.

O caminho até os postos de saúde

A ciência exige paciência e rigor, mas as engrenagens já estão girando rápido. O Governo de Minas Gerais, em parceria com a Fapemig, já injetou R$ 18,8 milhões no projeto, com a promessa de novos aportes até 2027.

O cronograma dessa nova fase prevê cerca de quatro anos de estudos. O foco inicial ainda será em validações pré-clínicas aprofundadas, mas a expectativa é que os testes em humanos comecem entre o terceiro e o quarto ano.

O brilhantismo da equipe da UFMG não tem passado despercebido. Em 2023, a pesquisa venceu o cobiçado Prêmio Euro Inovação na Saúde, faturando 500 mil euros (cerca de R$ 2,5 milhões), além de ser reconhecida no Prêmio Veja Saúde & Oncoclínicas.

O Brasil está, literalmente, na vanguarda da esperança mundial contra a dependência química. E nós mal podemos esperar pelos próximos capítulos.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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