Tempestade "canibal" provocou auroras boreais inesperadas

Tempestade "canibal" provocou auroras boreais inesperadas

Fenômeno raro criou auroras boreais até no extremo sul dos EUA.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Um espetáculo cósmico e assustador

Imagine olhar para o céu e ver cortinas de luz dançando em tons de verde, rosa e violeta… não na Noruega, mas na Flórida, no extremo sul dos Estados Unidos.

Foi isso que aconteceu nesta semana, quando uma tempestade solar “canibal” atingiu a Terra e transformou o firmamento em um espetáculo digno de ficção científica.

O fenômeno, raro e poderoso, foi causado pela colisão de duas ejeções de massa coronal, ondas gigantes de plasma lançadas pelo Sol. Quando uma delas engoliu a outra antes de chegar à Terra, os cientistas batizaram o evento de “tempestade canibal”.

“A segunda ejeção alcançou e engoliu a primeira, formando uma tempestade geomagnética de alta intensidade”, explicaram pesquisadores do Serviço Geológico Britânico.

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O fenômeno foi causado pela colisão de duas ejeções de massa coronal

Auroras até na Flórida: o impacto visual da tempestade

O resultado foi uma das exibições de aurora boreal mais amplas em décadas, visíveis em locais onde o fenômeno raramente ocorre.
Do norte dos Estados Unidos até o sul da Flórida, o céu brilhou em cores hipnóticas, registradas por câmeras e celulares mundo afora.

Mas o que parece encantador pode ser perigoso.
As tempestades geomagnéticas alteram o campo magnético da Terra, interferindo em satélites, comunicações e redes elétricas. Por isso, os operadores de energia e de telecomunicações foram alertados para possíveis falhas.

O que é uma tempestade solar “canibal”?

As chamadas Ejeções de Massa Coronal (EMCs) são nuvens colossais de partículas carregadas, lançadas a milhões de quilômetros por hora da atmosfera solar.
Quando duas dessas ejeções se unem no espaço e atingem a Terra com força combinada, ocorre uma tempestade “canibal”.

Esse tipo de evento é capaz de provocar tempestades geomagnéticas extremas, classificadas como G5, o nível máximo da escala espacial.
Além de gerar auroras intensas, pode causar apagões elétricos, perda de sinal de GPS e falhas em satélites.

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Esse tipo de evento é capaz de provocar tempestades geomagnéticas extremas

Satélites em alerta e lançamentos adiados

O impacto solar foi tão intenso que até a Blue Origin, empresa espacial de Jeff Bezos, precisou adiar o lançamento da missão Escapade, da NASA, que levaria dois satélites a Marte.
A atividade solar extrema tornaria a viagem arriscada, com risco de danificar os equipamentos durante a travessia do campo magnético.

“O New Glenn está pronto para lançamento, mas a alta atividade solar exige cautela”, informou a empresa em comunicado oficial.

Quando o Sol se torna imprevisível

Nos últimos dias, o Sol liberou três explosões de classe X, o tipo mais poderoso de erupção solar existente.
Essas explosões partiram da região de manchas solares AR 14274, identificada por astrônomos da Universidade do Colorado, e atingiram velocidades superiores a 3,4 milhões de quilômetros por hora.

Mesmo com o pico do ciclo solar de 11 anos tendo ocorrido em 2024, o astro-rei continua extremamente ativo.
Segundo os cientistas, estamos entrando em uma fase de declínio do ciclo, mas paradoxalmente, é nesse período que acontecem as explosões mais fortes.

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Segundo os cientistas, estamos entrando em uma fase de declínio do ciclo

Tempestade recorde: o maior campo magnético desde 2012

Durante o fenômeno, sensores registraram o campo geoelétrico mais intenso da última década, chegando a 3,5 volts por quilômetro nas Ilhas Shetland, na Escócia — algo nunca antes observado.
Essa força é capaz de interferir em transformadores, sistemas elétricos e até provocar superaquecimento de redes.

Em comparação, a famosa Tempestade de Carrington, de 1859, ainda é o evento geomagnético mais extremo já registrado, capaz de causar incêndios em telégrafos.
Mas o episódio recente se tornou o terceiro mais forte do ciclo solar atual, de acordo com o físico Ryan French.

O lado bonito (e perigoso) das auroras

Apesar do risco tecnológico, as tempestades solares também são responsáveis por um dos espetáculos naturais mais fascinantes do planeta.
Quando as partículas do Sol atingem a atmosfera terrestre, elas colidem com gases como o oxigênio e o nitrogênio, gerando luzes de diversas cores no céu, as famosas auroras boreais e austrais.

Essas luzes podem até passar despercebidas a olho nu, mas câmeras e celulares captam sua beleza com facilidade.
E durante a tempestade “canibal”, elas brilharam mais do que nunca.

“Mesmo longe dos polos, o céu se transformou em um show de luzes cósmicas”, relatou um observador da Flórida.

O Sol está apenas começando

A “tempestade canibal” de novembro de 2025 entra para a história como um lembrete poderoso: vivemos sob o humor do Sol.
Cada explosão, cada ejeção e cada aurora revelam o quanto o espaço ainda guarda segredos — e o quanto dependemos dele.

Embora os riscos para satélites e redes sejam reais, o espetáculo visual que ela proporcionou fez o mundo inteiro olhar para cima, admirado e pequeno diante da força de uma estrela.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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