Pessoas obcecadas por políticos de esquerda ou direita apresentaram traços mentais semelhantes em testes..
Você provavelmente já encontrou alguém assim.
Pode ser aquela pessoa que transforma qualquer conversa em debate político, que defende um candidato como se fosse um time de futebol ou que parece incapaz de enxergar qualquer defeito no político que admira.
Também pode ser o contrário: alguém que dedica grande parte do tempo a atacar um adversário político, como se toda a realidade girasse em torno daquela figura.
Segundo um estudo recente, pessoas obcecadas por políticos podem compartilhar uma característica psicológica em comum: menor flexibilidade cognitiva.
Em outras palavras, elas tendem a ter mais dificuldade para mudar de opinião, considerar novas perspectivas ou aceitar que a realidade pode ser mais complexa do que parece.
Pesquisadores da Universidade de Cambridge analisaram mais de 700 pessoas nos Estados Unidos e descobriram que indivíduos com apego mais intenso a partidos ou ideologias apresentavam um padrão mental semelhante, independentemente de serem de esquerda ou de direita.

Pessoas obcecadas por políticos podem compartilhar uma característica psicológica em comum: menor flexibilidade cognitiva
O que significa ter baixa flexibilidade cognitiva?
A flexibilidade cognitiva é a capacidade que uma pessoa tem de adaptar a forma de pensar diante de novas informações, situações inesperadas ou pontos de vista diferentes.
Quem possui alta flexibilidade costuma conseguir mudar de estratégia, rever opiniões e aceitar nuances com mais facilidade.
Já pessoas obcecadas por políticos tendem a apresentar o oposto.
Elas costumam enxergar o mundo de forma mais rígida, dividindo tudo entre certo e errado, bem e mal, amigo e inimigo.
Essa forma de pensar pode fazer com que qualquer informação que contradiga suas crenças seja ignorada, rejeitada ou vista como ameaça.
Pessoas obcecadas por políticos costumam enxergar a realidade de forma mais rígida, com menos espaço para nuances e opiniões diferentes.
Segundo os pesquisadores, pessoas com menor flexibilidade cognitiva também tendem a buscar mais segurança em grupos, ideologias e líderes que ofereçam respostas simples para problemas complexos.

Pessoas obcecadas por políticos costumam enxergar a realidade de forma mais rígida
Como o estudo identificou esse padrão?
Para chegar a essa conclusão, os cientistas aplicaram testes psicológicos em 743 participantes.
Esses testes avaliavam a capacidade de adaptação mental, mudança de estratégia e criatividade diante de diferentes tarefas.
Entre os exercícios, havia jogos de associação de palavras, testes de classificação de cartas e atividades que exigiam imaginar usos alternativos para objetos do cotidiano.
Depois disso, os participantes responderam perguntas sobre posicionamentos políticos, afinidade partidária e intensidade da identificação com partidos.
Os resultados mostraram que pessoas obcecadas por políticos, tanto do Partido Democrata quanto do Partido Republicano, apresentavam maior rigidez mental nos testes realizados. Já os participantes independentes tendiam a demonstrar maior flexibilidade cognitiva.
Pessoas obcecadas por políticos existem em todos os lados
Um dos pontos mais interessantes da pesquisa é que ela não aponta um lado político específico.
O estudo mostrou que pessoas obcecadas por políticos podem existir em qualquer posição ideológica.
Ou seja, a rigidez mental não apareceu apenas entre conservadores ou apenas entre progressistas.
Ela foi observada em pessoas que demonstravam apego intenso a qualquer grupo político.
Isso sugere que o problema talvez não esteja exatamente na ideologia em si, mas na forma como algumas pessoas se relacionam com ela.
Quando alguém transforma um político em ídolo absoluto ou em inimigo permanente, existe uma tendência maior de abandonar o pensamento crítico.
Em vez de analisar ideias, propostas e fatos, a pessoa passa a enxergar tudo como uma disputa de torcida.
Quanto mais intensa é a ligação emocional com um partido ou político, maior pode ser a dificuldade de aceitar novas informações e mudar de posição.
Os pesquisadores destacam que isso ajuda a explicar por que tantas discussões políticas nas redes sociais parecem tão agressivas e improdutivas.

Em vez de analisar ideias, propostas e fatos, a pessoa passa a enxergar tudo como uma disputa de torcida
É possível mudar esse padrão?
A boa notícia é que a flexibilidade cognitiva pode ser desenvolvida.
Segundo os pesquisadores, atividades que estimulam pensamento crítico, empatia, leitura, contato com pessoas diferentes e aprendizado constante podem ajudar a reduzir a rigidez mental.
Isso não significa abandonar crenças ou deixar de ter opinião política.
Ter posicionamentos é normal e faz parte da vida em sociedade.
O problema surge quando a pessoa deixa de questionar, ouvir ou refletir.
Pessoas obcecadas por políticos muitas vezes acreditam que estão apenas defendendo suas convicções, mas acabam se fechando para qualquer informação que não confirme aquilo em que já acreditam.
No fim, a política deixa de ser uma ferramenta para entender o mundo e vira apenas um campo de batalha permanente.
Talvez o maior desafio dos tempos atuais seja justamente aprender a discordar sem transformar tudo em guerra.