Imagine caminhar por um parque e encontrar um grupo de pessoas correndo sobre quatro apoios, brincando, pulando e interagindo como se fossem animais. Depois de alguns minutos, a atividade termina e todos voltam à rotina normalmente. Para quem observa de fora, a cena pode parecer estranha. Para quem participa, faz parte de uma forma profunda de autoidentificação.
Esse é o universo dos chamados therians, um fenômeno que vem ganhando visibilidade em diferentes países e gerando curiosidade, debates e muitas dúvidas nas redes sociais.
Mas afinal, o que significa ser therian? E qual a diferença entre esse movimento e outras comunidades, como os furries?
O que é um therian?
O termo therian vem da palavra grega therion, que significa “besta selvagem”. Na prática, ele é usado para descrever pessoas que se identificam, de forma parcial ou simbólica, como um animal não humano, mesmo tendo plena consciência de que são biologicamente humanas.
Essa identificação não é apenas estética ou recreativa. Muitos relatam uma conexão emocional ou psicológica profunda com determinada espécie, chamada de teriótipo. Os mais comuns são cães, gatos, lobos e raposas, mas também existem relatos envolvendo animais extintos ou até criaturas mitológicas.
Para muitos integrantes da comunidade, essa sensação surge ainda na infância. Alguns relatam experiências subjetivas, como a impressão de possuir orelhas, cauda ou outros traços do animal com o qual se identificam.
Para os therians, não se trata de fantasia ou brincadeira. É uma forma de identidade que descreve como a pessoa se percebe internamente.
Therian é a mesma coisa que furry?
Apesar de frequentemente confundidos, therian e furry são conceitos diferentes.
Os furries fazem parte de uma comunidade ligada à cultura pop e ao entretenimento. Eles apreciam personagens animais com características humanas e, em muitos casos, participam de eventos, produzem arte ou usam fantasias conhecidas como fursuits.
Já os therians não necessariamente usam fantasias ou participam de atividades performáticas. A identificação é interna, psicológica ou espiritual, e não apenas estética.
Enquanto o furry está mais ligado a hobby e expressão artística, o therian está relacionado a uma percepção de identidade pessoal.
Um fenômeno recente ou algo antigo?
Embora o termo therian tenha se popularizado nos anos 1990, a ideia de humanos com traços ou identidades animais é muito mais antiga. Culturas ao redor do mundo possuem mitos e narrativas sobre figuras híbridas, como homens-lobo, xamãs que assumem formas animais ou espíritos de proteção ligados à natureza.
A comunidade moderna surgiu com a internet, especialmente em fóruns e salas de bate-papo, que permitiram que pessoas com experiências semelhantes se encontrassem e compartilhassem suas percepções.
Com as redes sociais, o fenômeno ganhou visibilidade global, especialmente entre jovens, o que ajudou a impulsionar o crescimento do movimento.
O que a ciência e a psicologia dizem?
Até o momento, não existe um consenso científico definitivo sobre o fenômeno therian. A maioria dos especialistas evita classificá-lo automaticamente como transtorno ou condição clínica.
Estudos sobre comunidades relacionadas, como os furries, indicam que níveis de ansiedade, depressão ou outros transtornos não são maiores do que na população geral.
No caso dos therians, ainda há poucos estudos específicos. No entanto, o fenômeno costuma ser interpretado como uma forma de identidade ou expressão pessoal, desde que não cause sofrimento significativo ou prejuízo à vida cotidiana.
A principal questão não é a identificação em si, mas se ela interfere negativamente na saúde mental, nas relações sociais ou no funcionamento diário da pessoa.
Por que o tema gera tanta discussão?
O crescimento da visibilidade dos therians nas redes sociais trouxe o tema para o centro do debate público. Para alguns, trata-se de uma forma legítima de expressão de identidade. Para outros, o fenômeno gera estranhamento ou preocupação.
Parte dessa reação vem do fato de que o movimento desafia ideias tradicionais sobre identidade humana. Em uma era marcada por novas formas de autoexpressão, temas como esse acabam ampliando discussões sobre comportamento, pertencimento e diversidade psicológica.
Além disso, a internet contribui para a viralização de conteúdos mais performáticos, o que pode reforçar estereótipos ou simplificar um fenômeno que, na prática, é bastante diverso.
Identidade, expressão e o mundo contemporâneo
Independentemente das opiniões, o fenômeno therian reflete uma característica importante do mundo atual: a busca por identidade e pertencimento em comunidades que compartilham experiências semelhantes.
Para muitos, a identificação com um animal representa características simbólicas, como liberdade, instinto, força ou sensibilidade. Em um contexto social cada vez mais digital e complexo, essas formas de autoexpressão ganham espaço e visibilidade.
Ainda existem muitas perguntas sem resposta. O tema continua sendo estudado por psicólogos, sociólogos e pesquisadores do comportamento humano.
Mas uma coisa é certa: o fenômeno revela como as formas de identidade estão se tornando mais variadas e complexas no mundo contemporâneo.
Já imaginou viver em uma época em que as pessoas não apenas escolhem como se expressar, mas também como se percebem por dentro?