O pedido urgente dos cientistas aos negociadores da COP30

O pedido urgente dos cientistas aos negociadores da COP30

Pesquisadores mostram que o planeta está prestes a cruzar limites perigosos.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine caminhar pelo calor abafado de Belém durante a COP30 e perceber que, enquanto milhares discutem o futuro do clima, há uma mensagem ainda mais urgente ecoando nos corredores. É a voz da ciência, quase como um chamado que atravessa o barulho das negociações e lembra que não há mais espaço para dúvidas ou demora.

Pesquisadores de vários lugares do mundo viajaram à cidade para reforçar esse recado. E o pedido é direto: agir agora, antes que ultrapassemos pontos sem retorno.

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A COP30 ganhou um espaço inédito. O Pavilhão de Ciências Planetárias

O primeiro pavilhão exclusivo da ciência em uma COP

A COP30 ganhou um espaço inédito. O Pavilhão de Ciências Planetárias, solicitado pela presidência da conferência e instalado na Zona Azul, foi criado para que a ciência não apenas acompanhe o debate, mas o lidere.

O pavilhão é presidido por Johan Rockström, do Instituto Potsdam, e por Carlos Nobre, uma das vozes mais importantes sobre Amazônia no mundo. Nos dias 14 e 17, eles reuniram especialistas para traduzir, de forma clara, o que os dados mostram e como isso deveria orientar decisões urgentes.

“Agora, na metade da década, quando as emissões globais já deveriam estar caindo, elas continuam a crescer.”

O orçamento de carbono está quase no fim

O conceito de orçamento de carbono funciona como uma espécie de limite máximo de CO2 que ainda podemos emitir antes de aquecer o planeta além de 1,5ºC. Esse número é de 170 bilhões de toneladas.

O problema é que estamos queimando esse orçamento em velocidade surpreendente. Apenas em 2025, o mundo lançou 38,1 bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera. Se esse ritmo continuar, atingiremos 1,5ºC em apenas quatro anos.

O relatório Global Carbon Budget confirma essa tendência e indica um aumento de 1,1% das emissões em 2025. É exatamente o oposto do que deveria estar acontecendo nesta década decisiva.

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Pesquisadores de vários lugares do mundo estão debatendo sobre o assunto

Corais e Amazônia: os sinais mais preocupantes

Os cientistas destacam dois ecossistemas que já mostram sinais de colapso iminente: os recifes de corais tropicais e a floresta amazônica.

Os corais, que sustentam cerca de um terço da vida marinha, estão entre os mais vulneráveis. Estudos indicam que entre 30% e 50% deles já foram perdidos no mundo. E mais de 80% dos que restam sofreram branqueamento severo nos últimos três anos, consequência direta do aquecimento e acidificação dos oceanos.

A Amazônia segue um caminho igualmente delicado. A seca extrema registrada nos últimos anos é considerada uma das piores da história. Com as mudanças climáticas, eventos desse tipo se tornaram 30 vezes mais prováveis.

Essa combinação de calor, estiagem e degradação cria o cenário perfeito para queimadas. Em duas décadas, foram registrados 140 mil incêndios florestais.

“Cada aumento de 0,1ºC traz riscos muito maiores, incluindo ondas de calor letais, tempestades extremas e danos permanentes a populações vulneráveis.”

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As emissões globais precisariam cair cerca de 5% por ano

O que deve acontecer a partir de agora?

Para permanecer dentro do Acordo de Paris, as emissões globais precisariam cair cerca de 5% por ano. Mas, do jeito que está, o planeta tende a reduzir apenas 5% no acumulado dos próximos dez anos.

É por isso que os cientistas apresentaram um pedido claro aos negociadores: criar um roteiro objetivo e mundial para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis e a proteção total das florestas tropicais.

Eles lembram que não existe estabilidade climática sem abandonar rapidamente carvão, petróleo e gás.

“É impossível impedir o aumento das temperaturas sem a eliminação rápida dos combustíveis fósseis. Isso é física.”

A declaração foi assinada por nomes de peso como Carlos Nobre, Johan Rockström, Chris Field, Piers Forster, Thelma Krug, entre outros especialistas que estudam o clima há décadas.

Um momento decisivo para a COP30

A segunda semana da conferência será marcada por negociações intensas. E, pela primeira vez, existe um espaço dedicado a garantir que a ciência esteja no centro de tudo.

A questão não é mais se devemos agir, mas quando. E, segundo os pesquisadores, essa resposta já está dada. O momento é agora.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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