Jards Macalé nos deixa. O adeus ao anjo torto da MPB

Jards Macalé nos deixa. O adeus ao anjo torto da MPB

Um dos artistas mais originais da MPB encerra uma trajetória de 60 anos.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

A despedida de Jards Macalé: o anjo torto da MPB deixa um legado eterno

Poucas notícias silenciam uma tarde como a partida de um artista que atravessou gerações. Imagine o Brasil respirando cultura, história e música, enquanto, de repente, recebe a confirmação da morte de alguém que parecia eterno. Assim foi o impacto da notícia sobre Jards Macalé, que morreu no Rio de Janeiro aos 82 anos. Para muitos, não foi apenas a perda de um músico, mas o adeus a um espírito livre que nunca aceitou ser encaixado.

A morte foi confirmada por amigos e anunciada nas redes sociais do artista. Macalé estava internado em um hospital na Barra da Tijuca, tratando problemas pulmonares, e sofreu uma parada cardíaca na tarde desta segunda-feira.

“Jards Macalé nos deixou hoje. O que sobra é a arte. Não quero ser moderno, quero ser eterno”, diz a nota publicada em suas redes.

Frase forte, quase profética, que ecoa como síntese perfeita de quem sempre preferiu trilhar uma estrada própria.

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"Jards Macalé nos deixou hoje. O que sobra é a arte."

Um artista que preferiu os desvios

Nascido em 1943, no Rio, Jards Anet da Silva surgiu no cenário musical dos anos 1960 com uma força rara. Sua primeira composição gravada por Elizeth Cardoso já mostrava que ele não seria só mais um nome na música brasileira. Ele não buscava seguir tendências. Ele buscava romper com elas.

Com postura vanguardista e espírito inquieto, ganhou o apelido de anjo torto da MPB, expressão que o acompanharia para sempre. Seus shows, suas falas e sua forma de misturar estilos criavam uma espécie de atmosfera de estranhamento, mas também de fascínio.

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Com postura vanguardista e espírito inquieto, ganhou o apelido de anjo torto da MPB

A explosão de Macalé no Brasil

Seu grande momento inicial veio em 1969, com a performance de Gotham City no festival da canção. Anos depois, em 1972, lançou o álbum Jards Macalé, obra que misturava rock, samba, jazz, baião, blues e muito mais. Um disco que parecia desafiar qualquer tentativa de rotulagem.

Foi ali que ele consolidou sua estética híbrida e irreverente. Uma estética que incomodava quem esperava previsibilidade, mas encantava quem buscava originalidade.

A construção de uma obra incontornável

Jards Macalé é autor de letras que ultrapassaram o tempo e se tornaram parte da cultura brasileira. Músicas como Vapor Barato, Hotel das Estrelas, Mal Secreto e Anjo Exterminado ganharam interpretações inesquecíveis nas vozes de Gal Costa, Maria Bethânia e até O Rappa.

E não era só compositor. Era arranjador, diretor musical e parceiro de alguns dos maiores nomes da arte brasileira. Waly Salomão, Torquato Neto, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Vinicius de Moraes e José Carlos Capinan dividiram com ele versos, noites, experimentações e caminhos que definiram uma geração.

Sua participação em Transa, de Caetano Veloso, se tornou lendária e ajudou a moldar um dos discos mais importantes da MPB.

Um artista que nunca desacelerou

Ao longo de 60 anos de carreira, Macalé navegou entre música, cinema, teatro e artes plásticas. Sempre com a mesma energia inquieta e uma voz ruminada que se tornaria sua marca.

E mesmo aos 80 anos, continuava relevante. Em 2019 lançou Besta Fera, álbum que mostrou que sua mente criativa jamais se aposentou. Macalé era movimento. Era liberdade. Era insistência artística.

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Macalé era movimento. Era liberdade. Era insistência artística.

O fim de um ciclo, o início da eternidade

A morte de Jards Macalé encerra a presença física de um artista que nunca aceitou padrões. Mas sua obra permanece. Continua acesa, viva, pulsando. Quem ouviu uma vez, dificilmente esquece.

Quando a notícia da sua morte se espalhou, uma sensação tomou conta das redes: o Brasil perdeu um pedaço importante de sua ousadia cultural. Mas ganhou algo maior. Ganhou um eterno.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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