Inspirado em favelas, condomínio no Rio tem imóveis milionários

Inspirado em favelas, condomínio no Rio tem imóveis milionários

Quando a favela virou luxo na arquitetura carioca em condomínio de luxo no Rio.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

À primeira vista, parece uma favela. Mas não é.

Quem observa de longe, da rua ou do outro lado do vale, pode jurar que está diante de uma comunidade encravada no morro. Casas de tijolo aparente, volumes sobrepostos, caminhos sinuosos e uma ocupação que acompanha a encosta. Mas basta se aproximar para perceber que ali não há vielas improvisadas, e sim um condomínio de alto padrão, com imóveis que ultrapassam os R$ 2 milhões.

No Humaitá, bairro nobre da zona sul do Rio de Janeiro, o condomínio Parque Maria Cândida Pareto voltou a chamar atenção nas redes sociais justamente por esse contraste. O que parece favela, na verdade, é um projeto arquitetônico assinado por um dos nomes mais inquietos da arquitetura brasileira.

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O que parece favela, na verdade, é um projeto de um grande arquiteto brasileiro

 

️ Um condomínio que cresce como o morro

Construído em 1978, o Parque Maria Cândida Pareto abriga 60 casas distribuídas em 11 níveis, organizados como se fossem andares escalonados. Cada rua interna ocupa uma altura diferente da encosta, criando uma circulação vertical incomum para padrões residenciais tradicionais.

O conjunto conta com estacionamento, salão de festas, quadra esportiva e até elevadores que funcionam como pequenos bondinhos, ajudando os moradores a vencer o desnível do terreno. Tudo isso cercado por áreas verdes, em uma das regiões mais valorizadas da cidade.

Nada ali é aleatório. O desenho segue uma lógica precisa, pensada para dialogar com o relevo e minimizar o impacto visual da construção sobre a paisagem.

Um sonho urbanístico que começou na favela

O arquiteto responsável pelo projeto foi Sérgio Bernardes, conhecido tanto por residências para a elite quanto por propostas ousadas de urbanismo social. Décadas antes do condomínio existir, Bernardes defendia que as favelas cariocas poderiam ser remodeladas com soluções arquitetônicas inteligentes, respeitando o terreno e permitindo crescimento gradual das moradias.

Segundo pesquisadores, o arquiteto chegou a propor um modelo semelhante para a favela do Irajá, nos anos 1960. A ideia era criar unidades compactas, modulares e expansíveis, adaptadas à encosta e integradas à cidade formal.

O que hoje é visto como condomínio de luxo nasceu como uma proposta de solução urbana para comunidades populares.

O projeto, no entanto, nunca saiu do papel no âmbito público. O conceito acabou sendo reaproveitado anos depois em um empreendimento privado.

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Segundo pesquisadores, o arquiteto chegou a propor um modelo semelhante para a favela do Irajá

 

Favela ou preconceito arquitetônico?

O uso do tijolo aparente, a ocupação do morro e a repetição visual das casas fazem com que muitas pessoas associem o condomínio a uma favela. Para especialistas, essa leitura diz mais sobre o olhar de quem observa do que sobre a arquitetura em si.

Trata-se de um conjunto localizado em um metro quadrado disputado, com assinatura de peso e soluções arquitetônicas pensadas para o terreno. Ainda assim, o apelido “faveluxo” circula entre moradores da zona sul, misturando ironia e crítica social.

A estética que incomoda alguns é justamente a que desafia padrões tradicionais de luxo urbano.

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Trata-se de um conjunto localizado em um metro quadrado disputado

 

Do ideal social ao mercado milionário

Hoje, o Parque Maria Cândida Pareto é sinônimo de alto poder aquisitivo. Imóveis no condomínio chegam a custar mais de R$ 2,4 milhões, com unidades duplex e triplex, vistas privilegiadas e taxas condominiais elevadas.

Para corretores da região, o contraste entre aparência e valor é parte do fascínio. Por fora, o conjunto lembra uma comunidade. Por dentro, oferece conforto, localização estratégica e exclusividade.

O legado de Sérgio Bernardes

Sérgio Bernardes não foi um arquiteto convencional. Atuou em grandes projetos nacionais, trabalhou para a elite carioca e, ao mesmo tempo, criticou duramente a lógica da propriedade privada e da segregação urbana. Em entrevistas, chegou a afirmar que vivemos em uma sociedade marcada pela exclusão e pela feiura imposta pelo modelo urbano.

Morto em 2012, Bernardes segue sendo lembrado justamente por essa contradição: um arquiteto que transitou entre o luxo e o social, entre o mercado e a utopia.

Não por acaso, décadas depois, um condomínio inspirado em uma ideia de favela continua provocando debates, curtidas, estranhamento e reflexões.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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