Futebol nasceu no Paraguai? Copa reacende debate. Em uma Copa do Mundo, cada vitória carrega mais do que gols, defesa, tática e pênaltis. Às vezes, ela desperta memórias antigas, mexe com identidades nacionais e traz de volta histórias que pareciam escondidas em livros, museus e documentos esquecidos. Foi isso que aconteceu depois da classificação histórica do Paraguai sobre a Alemanha.
Agora, essa história ganha ainda mais força porque o Paraguai volta a campo daqui a pouco para enfrentar a França, neste sábado, 4 de julho de 2026, às 18h de Brasília, na Filadélfia, pelas oitavas de final da Copa do Mundo. De um lado, uma seleção francesa apontada como uma das favoritas ao título. Do outro, um Paraguai embalado pela zebra contra a Alemanha e por uma narrativa que mistura futebol, identidade e memória sul-americana.
A seleção paraguaia eliminou uma potência europeia nos pênaltis e fez o país inteiro olhar para si mesmo com orgulho. Mas, fora de campo, outra discussão voltou a ganhar força: será que o futebol nasceu no Paraguai?
A pergunta parece provocação, especialmente porque a versão mais conhecida da história diz que o futebol moderno foi criado na Inglaterra, com a regulamentação da Football Association em 1863. É daí que vêm as regras oficiais que deram forma ao esporte como conhecemos hoje. Mas existe uma tese antiga, defendida por pesquisadores, religiosos e documentaristas paraguaios, segundo a qual povos guaranis já praticavam, séculos antes, um jogo com bola usando os pés.
Esse jogo era chamado de manga ñembosarái, expressão associada à ideia de brincar ou jogar bola com os pés. A prática teria sido registrada por jesuítas nas missões do Paraguai, em relatos que descrevem indígenas guaranis disputando uma bola de borracha, impulsionada com o peito do pé, em partidas comunitárias.
A Inglaterra regulamentou o futebol moderno, mas a pergunta que intriga historiadores é se os guaranis já jogavam uma forma ancestral do esporte muito antes disso.

O debate sobre a origem do futebol mostra que o esporte mais popular do planeta também é uma disputa de memória, narrativa e identidade cultural
Futebol nasceu no Paraguai? A tese guarani
A ideia de que o futebol nasceu no Paraguai não significa, necessariamente, que o esporte atual, com traves, árbitro, impedimento, escanteio, tempo regulamentar e competições internacionais, tenha surgido exatamente como é hoje nas missões guaranis. A tese é mais sutil e mais interessante: ela afirma que os guaranis praticavam um jogo com bola e uso dos pés muito antes da padronização britânica.
Um dos registros mais citados é o livro Tesoro de la lengua guaraní, publicado em 1639 pelo jesuíta Antonio Ruiz de Montoya. A obra é um dicionário guarani-espanhol e aparece frequentemente nas pesquisas sobre a prática do manga ñembosarái. Outros relatos atribuídos a jesuítas, como José Cardiel e José Manuel Peramás, também descrevem jogos com bola entre os guaranis.
Esses documentos ajudam a sustentar a hipótese de que, no atual território paraguaio, existia uma atividade coletiva muito parecida com o futebol em seu elemento mais básico: uma bola, jogadores e o uso dos pés. Não era o futebol moderno, mas poderia ser um antepassado cultural do jogo.
A tese ganhou mais visibilidade com o documentário Los Guaraníes Inventaron el Fútbol, dirigido por Marcos Ybáñez e lançado em 2014. A produção defende que San Ignacio Guazú, uma das primeiras missões jesuíticas do Rio da Prata, seria uma espécie de berço desse futebol ancestral. A cidade, inclusive, reivindica essa identidade como parte de sua memória histórica.
O que era o manga ñembosarái?
O manga ñembosarái era um jogo praticado com uma bola feita a partir de materiais naturais, associada ao uso de resina ou borracha. Os relatos indicam que os participantes usavam os pés para manter a bola em movimento, em uma dinâmica que lembraria, de forma distante, o futebol que hoje domina estádios e ruas pelo mundo.
A grande diferença é que não havia o mesmo sistema de regras do futebol atual. Não se tratava de uma partida com 90 minutos, juiz, goleiro, cartões e placar como conhecemos. Era uma prática comunitária, ligada ao lazer, ao corpo e à cultura guarani. Ainda assim, o simples fato de haver um jogo de bola com os pés em pleno século XVII já torna a história fascinante.
Esse ponto é essencial para evitar confusão. A tese não apaga a importância da Inglaterra na criação do futebol moderno. O que ela faz é questionar uma narrativa mais simplificada, segundo a qual o jogo teria nascido completamente do zero na Europa. Na verdade, muitas culturas antigas tiveram jogos com bola. A originalidade guarani estaria no uso destacado dos pés, aspecto central do futebol atual.
Em outras palavras, talvez a pergunta correta não seja apenas “onde nasceu o futebol?”, mas “quantas histórias diferentes ajudaram a formar o futebol?”.

A Inglaterra regulamentou o futebol moderno, mas a pergunta que intriga historiadores é se os guaranis já jogavam uma forma ancestral do esporte muito antes disso
Paraguai x França reacende uma identidade antiga
O duelo contra a França pelas oitavas de final da Copa coloca essa tese em um palco ainda maior. Depois de eliminar a Alemanha, o Paraguai encara outra gigante europeia, agora valendo vaga nas quartas. E, como em todo grande jogo de mata-mata, a partida carrega mais do que estatística. Ela carrega símbolo.
A França chega com favoritismo, elenco estrelado e campanha forte. O Paraguai chega como surpresa, resistência e memória. A partida na Filadélfia vira, de certa forma, um encontro entre o futebol moderno europeu, organizado, poderoso e milionário, e uma seleção sul-americana que volta a lembrar o mundo de uma pergunta incômoda: e se uma das raízes mais antigas do futebol estiver justamente na terra guarani?
A classificação do Paraguai sobre a Alemanha reacendeu essa conversa porque o futebol, para os paraguaios, não é apenas esporte. É também símbolo de resistência, entrega e identidade. Após a vitória, o técnico Gustavo Alfaro falou sobre a “terra vermelha”, sobre jogadores formados em condições difíceis e sobre a força de uma seleção que carrega no corpo e na camisa uma história de luta.
Essa imagem da terra vermelha conversa diretamente com a narrativa guarani. O futebol paraguaio costuma ser associado à garra, à marcação forte, à capacidade de sofrer e resistir. Para quem defende a tese do manga ñembosarái, essa identidade não seria apenas uma característica esportiva moderna, mas uma herança cultural mais profunda.
A partida contra a França, portanto, chega em um momento perfeito para essa discussão voltar ao centro. Se o Paraguai vencer, a tese ganhará ainda mais circulação nas redes e na imprensa. Se perder, a história continuará curiosa do mesmo jeito, porque o debate sobre a origem do futebol não depende apenas de placar. Ele depende de memória, documentação e reconhecimento.
O debate sobre a origem do futebol mostra que o esporte mais popular do planeta também é uma disputa de memória, narrativa e identidade cultural.
Inglaterra criou o futebol moderno, mas e antes?
A resposta mais equilibrada é reconhecer as duas coisas. A Inglaterra foi fundamental para transformar o futebol em esporte organizado. A Football Association padronizou regras em 1863, permitindo que clubes jogassem sob um mesmo código. Sem essa regulamentação, dificilmente o futebol teria se tornado o fenômeno global que conhecemos.
Mas a existência de jogos de bola anteriores à Inglaterra é um fato histórico em várias culturas. Povos indígenas, civilizações antigas e comunidades tradicionais já tinham práticas corporais envolvendo bolas, pés, mãos, rituais, disputas e brincadeiras. O caso guarani entra nessa longa linhagem de jogos que mostram como a relação entre corpo, bola e competição é muito mais antiga do que os campeonatos modernos.
A força da tese paraguaia está justamente na documentação histórica. Não é apenas uma lenda solta. Há registros jesuítas, vocabulário guarani, relatos de práticas comunitárias e uma memória local preservada em San Ignacio Guazú. Isso não encerra o debate, mas dá consistência à hipótese.
Ainda assim, é importante usar as palavras com cuidado. Dizer que o futebol nasceu no Paraguai pode soar como afirmação definitiva. Dizer que povos guaranis praticavam um jogo ancestral parecido com o futebol, séculos antes da regulamentação inglesa, é mais preciso e historicamente mais responsável.
Essa nuance não diminui a beleza da história. Pelo contrário. Ela torna tudo mais interessante. O futebol moderno pode ter sido codificado na Inglaterra, mas talvez parte de sua poesia, de sua intuição e de sua forma mais simples, uma bola sendo disputada com os pés, já estivesse viva na América do Sul muito antes.
No fundo, essa discussão revela como o futebol é maior do que qualquer ata oficial. Ele não pertence apenas aos países que organizaram suas regras. Pertence também aos povos que chutaram, brincaram, correram, disputaram e transformaram uma bola em linguagem coletiva.
O Paraguai, ao voltar a brilhar na Copa, não está apenas disputando uma vaga. Está fazendo o mundo olhar novamente para uma pergunta esquecida: quem tem o direito de contar a história do futebol?
Talvez a resposta não esteja em escolher entre Paraguai e Inglaterra, mas em entender que o esporte mais amado do planeta tem muitas camadas. A Inglaterra deu forma ao futebol moderno. Os guaranis, segundo a tese paraguaia, podem ter dado ao mundo uma de suas raízes mais antigas.
E, quando Paraguai e França entrarem em campo pelas oitavas de final, essa memória vai ganhar chuteira, camisa e voz. A cada bola dividida, a cada defesa, a cada contra-ataque e a cada grito da torcida, o país lembrará que sua relação com o futebol talvez seja mais antiga do que muita gente imagina.