Dois vírus de origem animal entram no radar de pandemias

Dois vírus de origem animal entram no radar de pandemias

Influenza D e HuPn-2018: o que a ciência teme? Eles já infectam humanos? Entenda o risco real


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Depois da Covid-19, muita gente passou a fazer a mesma pergunta: será que o mundo está preparado para a próxima pandemia? A resposta da ciência é direta e inquietante. O risco nunca desaparece. E agora, dois vírus de origem animal estão entrando no radar como possíveis ameaças futuras.

Um estudo publicado na revista Emerging Infectious Diseases, ligada ao CDC dos Estados Unidos, aponta que o influenza D e um coronavírus canino recombinante podem representar riscos importantes para a saúde global. O motivo não é apenas a existência desses vírus, mas o fato de que eles já circulam silenciosamente, com pouca vigilância e grande capacidade de adaptação.

O maior perigo de uma nova pandemia não é um vírus altamente letal, mas um vírus que circula sem ser percebido.

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Influenza D e um coronavírus canino recombinante podem representar riscos importantes para a saúde global


O que é o influenza D e por que ele preocupa?

O influenza D foi identificado pela primeira vez em 2011, em porcos com sintomas respiratórios. Desde então, ele já foi encontrado em diversos animais, como bovinos, camelos e cervos. Embora pertença à mesma família dos vírus da gripe humana, ele possui características genéticas diferentes.

O que chama a atenção dos pesquisadores é o contato frequente com humanos. Estudos realizados nos Estados Unidos mostraram que mais de 97% dos trabalhadores rurais apresentavam anticorpos contra o vírus, indicando exposição prévia, muitas vezes sem sintomas.

Pesquisas mais recentes também demonstraram que o influenza D consegue infectar células humanas em laboratório e pode ser transmitido pelo ar em modelos experimentais. Na China, levantamentos identificaram anticorpos em até 73% de pessoas com sintomas respiratórios.

Até o momento, não há registros de casos graves em humanos. Mas o histórico das pandemias mostra que a adaptação gradual é justamente o caminho mais comum para um vírus se tornar uma ameaça global.

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O influenza D consegue infectar células humanas em laboratório e pode ser transmitido pelo ar em modelos experimentais


O coronavírus canino que pode passar despercebido

O segundo vírus que preocupa os cientistas é o HuPn-2018, um coronavírus recombinante originado de vírus que circulam entre cães e gatos. Ele foi identificado pela primeira vez em um paciente com pneumonia na Malásia, em 2021.

Desde então, vírus semelhantes já foram encontrados em pessoas com infecções respiratórias em países como Tailândia, Vietnã e Estados Unidos, sugerindo que ele pode estar mais disseminado do que se imaginava.

O grande problema é o diagnóstico. Os testes laboratoriais tradicionais não conseguem detectar esse coronavírus, o que significa que muitos casos podem estar sendo confundidos com outras doenças respiratórias comuns.


Por que vírus de origem animal são tão perigosos?

Grande parte das pandemias recentes começou com vírus que saltaram de animais para humanos. Foi assim com a gripe H1N1, com a SARS e com a própria Covid-19.

O risco não está apenas na existência desses vírus, mas na falta de monitoramento. Atualmente, tanto o influenza D quanto o HuPn-2018 apresentam três fatores preocupantes: poucos testes específicos, baixa vigilância epidemiológica e dados limitados sobre seu impacto real na saúde humana.

Isso cria um cenário silencioso, no qual o vírus pode circular, evoluir e se adaptar antes mesmo de ser identificado.

A história das pandemias mostra que os maiores surtos começam quando a vigilância chega tarde demais.

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Grande parte das pandemias recentes começou com vírus que saltaram de animais para humanos


O que pode evitar uma nova crise sanitária?

Os pesquisadores defendem três medidas principais: ampliar a vigilância em animais e humanos, desenvolver testes diagnósticos específicos e investir em pesquisas que acompanhem a evolução desses vírus.

A atenção especial deve se concentrar em áreas rurais e em profissionais que têm contato frequente com animais, já que esses ambientes funcionam como pontos de transição entre espécies.

A boa notícia é que, por enquanto, nenhum dos dois vírus demonstrou alta gravidade em humanos. A preocupação é preventiva, não alarmista.

Mas a lição deixada pelos últimos anos é clara. Pandemias não surgem de repente. Elas começam silenciosamente, em algum lugar onde quase ninguém está olhando.

E é exatamente por isso que a ciência está de olho agora.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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