COP30 e o paradoxo dos navios que emitem toneladas de CO₂

COP30 e o paradoxo dos navios que emitem toneladas de CO₂

Navios usados como hotéis durante a conferência vão consumir até 270 mil litros de combustível por dia.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Um evento sobre o clima hospedado por navios movidos a combustível fóssil

Já imaginou participar de uma conferência mundial sobre o clima hospedado em um transatlântico que consome centenas de milhares de litros de combustível fóssil por dia?
Pois é exatamente isso que vai acontecer durante a COP30, que será realizada em Belém (PA), em 2025.

Dois navios italianos, o MSC Seaview e o Costa Diadema, chegaram ao Terminal Portuário de Outeiro para servir de hospedagem flutuante a parte dos participantes do evento. Juntos, eles oferecem cerca de seis mil leitos e funcionarão como verdadeiros hotéis de luxo sobre as águas.

Mas há um detalhe que está chamando a atenção de ambientalistas e especialistas em energia.

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As embarcações podem consumir até 270 mil litros de combustíveis fósseis por dia

Um paradoxo ambiental em pleno evento climático

As embarcações, que vão abrigar representantes de diversos países, podem consumir até 270 mil litros de combustíveis fósseis por dia em operação normal. Isso significa a emissão diária de toneladas de dióxido de carbono (CO₂); justamente o gás responsável por grande parte do aquecimento global.

“É uma ironia difícil de ignorar. Um evento que discute a redução das emissões começa hospedando pessoas em navios movidos a óleo marítimo”, comentou um especialista em energia ouvido pela imprensa.

Por que o governo escolheu os navios

Segundo o governo federal, a decisão de usar navios como hospedagem partiu da alta demanda por acomodações em Belém. A estrutura hoteleira da cidade não comporta o volume esperado de participantes — e os transatlânticos seriam uma solução logística temporária.

Ainda assim, a escolha levanta um debate importante: é possível promover sustentabilidade sem coerência ambiental?

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Ministro Rui Costa destacou a importância da nova estrutura para o estado do Pará

Um lembrete sobre os desafios da transição energética

O caso evidencia o desafio que o mundo enfrenta ao falar de transição energética.
Mesmo eventos voltados à sustentabilidade ainda dependem de tecnologias poluentes para viabilizar sua realização.

E, se por um lado a COP30 simboliza um avanço nas discussões globais sobre o clima, por outro, expõe o tamanho da distância entre o discurso e a prática.

“Não existe neutralidade de carbono quando o próprio evento que discute o clima precisa queimar combustível fóssil para acontecer”, criticou um pesquisador da área ambiental.

O impacto vai além das águas

Os navios movidos a óleo marítimo, um dos combustíveis mais poluentes do mundo, são conhecidos por liberar enxofre e partículas tóxicas no ar, afetando não só o clima, mas também a saúde humana.
E, com dois gigantes desse porte ancorados em Belém, a emissão de poluentes locais pode aumentar significativamente durante o evento.

Enquanto o mundo se reúne para discutir o futuro do planeta, a COP30 começa com uma lição prática sobre a complexidade da sustentabilidade real: o caminho para um planeta mais verde ainda depende de escolhas que, muitas vezes, continuam manchadas de combustível fóssil.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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