Coaches de TDAH atuam como psicólogos sem a devida formação acadêmica

Coaches de TDAH atuam como psicólogos sem a devida formação acadêmica

Estudo recente detalha o perfil desses instrutores não qualificados, cuja popularidade disparou após o período pandêmico.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Profissionais que oferecem consultoria, conduzem sessões semanais e discutem temas clínicos, cobrando valores similares aos de psicoterapeutas, mas sem possuir qualquer diploma em psicologia. Esta é a descrição dos chamados “coaches” de TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), uma categoria de instrutores que experimentou um crescimento exponencial após o início da pandemia de Covid-19.

Uma nova investigação buscou compreender a identidade desses indivíduos que, ao propor soluções práticas para desafios cotidianos, orientam seus clientes a superar os obstáculos do TDAH e alcançar metas pessoais.

Conforme o levantamento, a maioria desses especialistas – mais de 72% – relata suspeitar ter ou já ter recebido um diagnóstico de TDAH. Com poucas exceções, eles frequentemente utilizam suas próprias vivências com o transtorno como base para suas consultorias.

A pesquisa, publicada em 15 de abril no prestigiado periódico JAMA Network Open, compilou dados de 481 coaches nos Estados Unidos. No território norte-americano, em 2024, um em cada cinco adultos com TDAH e uma em cada sete crianças buscaram o apoio desses profissionais.

Mais de 60% dos “coaches” iniciaram suas atividades na área após o surto da pandemia. Este período foi marcado por um aumento expressivo na procura por diagnósticos, tratamentos e medicamentos para o transtorno, impulsionado por fatores como a expansão da telemedicina e a crescente visibilidade do tema nas redes sociais.

Diante dessa explosão de diagnósticos, aproximadamente 40% das pessoas com TDAH nos EUA ficaram sem acesso a qualquer tipo de tratamento. O coaching, então, emergiu como uma alternativa aos serviços de saúde convencionais, que se mostraram incapazes de atender à demanda crescente. Curiosamente, cerca de 65% dos coaches afirmaram ter recebido indicações de profissionais da saúde.

Embora estudos prévios tenham explorado os efeitos positivos do coaching em estudantes universitários com TDAH, indicando melhorias nos sintomas, a segurança dessas novas abordagens terapêuticas tem sido objeto de questionamento.

Os dados revelam uma preocupante falta de qualificação: cerca de 89% dos entrevistados não possuíam experiência prévia em saúde mental, e 85% operavam sem licença profissional. Para mais de 62% deles, a única formação obtida veio de outros coaches de TDAH, e impressionantes 90% atuavam sem qualquer supervisão clínica.

Apesar da ausência de formação formal, as práticas desses profissionais frequentemente se assemelham às de psicólogos. Eles oferecem, em grande parte online, sessões individuais e semanais, com cobranças similares às de psicoterapeutas – valores que, geralmente, não são cobertos por seguros de saúde. Durante as sessões, é comum que sejam abordados assuntos delicados e clínicos, como traumas, abuso de substâncias e crises.

Para exercer legalmente a psicologia, um profissional deve concluir um curso superior na área, realizar um estágio supervisionado e obter um registro profissional (no Brasil, emitido pelo Conselho Federal de Psicologia, o CFP). Os coaches de TDAH raramente atendem a esses requisitos, o que levanta sérios riscos para a saúde dos pacientes.

Ainda não se compreende totalmente o impacto de fatores como a disseminação de informações imprecisas, o reforço de diagnósticos equivocados e a aplicação de intervenções potencialmente prejudiciais na prática do coaching, especialmente considerando que uma parcela significativa dos clientes são crianças.

A pesquisa, ao traçar o perfil desses profissionais, representa um passo fundamental para a compreensão aprofundada desse fenômeno emergente. No entanto, questões cruciais sobre a segurança e a eficácia dessas práticas permanecem sem resposta.

Atualmente, o tratamento mais recomendado para o TDAH baseia-se em um tripé: educação (informação sobre a condição), psicoterapia e medicamentos. Dentro da psicoterapia, a Terapia Cognitiva Comportamental (TCC) é a abordagem mais indicada, conforme o estudo.

É relevante recordar que, em 2019, o Conselho Federal de Psicologia emitiu uma nota esclarecendo que psicólogos devidamente registrados podem, sim, integrar o coaching em sua prática terapêutica. Contudo, o conselho enfatizou que “qualquer profissional que não esteja inscrito no CRP, e que se utilizar de métodos e técnicas privativas da(o) psicóloga(o) durante sessões de coaching estará incorrendo em exercício ilegal da profissão”.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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