Anticoncepcional masculino pode pausar fertilidade sem hormônios

Anticoncepcional masculino pode pausar fertilidade sem hormônios

Anticoncepcional masculino pode interromper fertilidade. Cientistas descobriram como pausar a produção de esperma.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Durante décadas, a responsabilidade pela contracepção ficou concentrada quase totalmente nas mulheres. Pílulas, injeções, implantes e diversos outros métodos foram desenvolvidos para o corpo feminino, enquanto os homens continuaram basicamente com duas opções: preservativo ou vasectomia.

Agora, um novo estudo pode mudar isso.

Pesquisadores descobriram uma maneira de criar um anticoncepcional masculino capaz de “pausar” temporariamente a fertilidade sem alterar hormônios, sem causar danos permanentes e com recuperação total da capacidade reprodutiva após o fim do tratamento.

A descoberta é considerada um dos avanços mais promissores já feitos na busca por um anticoncepcional masculino seguro, reversível e de longa duração.

O novo anticoncepcional masculino foi desenvolvido por cientistas da Universidade Cornell

O novo anticoncepcional masculino foi desenvolvido por cientistas da Universidade Cornell

Como funciona o anticoncepcional masculino?

O novo anticoncepcional masculino foi desenvolvido por cientistas da Universidade Cornell e apresentado em um estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences.

A ideia central é interromper temporariamente a produção de espermatozoides em uma fase específica da meiose, o processo biológico responsável pela formação das células reprodutivas.

Os pesquisadores focaram especialmente em uma etapa chamada Prófase I, considerada um ponto crítico para a maturação das células que se transformarão em espermatozoides.

Para fazer isso, eles usaram uma molécula chamada JQ1, capaz de bloquear uma proteína conhecida como BRDT, essencial para o funcionamento normal da espermatogênese.

Quando essa proteína é bloqueada, a produção de espermatozoides maduros é interrompida temporariamente.

O grande diferencial desse anticoncepcional masculino é que ele não interfere na testosterona e não causa danos permanentes ao sistema reprodutivo.

Por que esse anticoncepcional masculino é diferente?

Uma das principais dificuldades no desenvolvimento de um anticoncepcional masculino sempre foi evitar efeitos colaterais.

Métodos hormonais testados anteriormente podiam causar alterações de humor, ganho de peso, queda de libido e outros problemas ligados à testosterona.

Já esse novo modelo atua de maneira muito mais específica.

Ele bloqueia apenas uma etapa da formação dos espermatozoides, sem afetar a produção hormonal do corpo.

Outro detalhe importante é que o tratamento preserva as chamadas células-tronco espermatogoniais, que funcionam como uma espécie de “reserva” para a produção futura de espermatozoides.

Isso significa que, mesmo durante o bloqueio, o organismo mantém intacta a capacidade de voltar a produzir espermatozoides normalmente depois.

Ele bloqueia apenas uma etapa da formação dos espermatozoides, sem afetar a produção hormonal do corpo

Ele bloqueia apenas uma etapa da formação dos espermatozoides, sem afetar a produção hormonal do corpo

O anticoncepcional masculino é reversível?

Esse talvez seja o ponto mais impressionante da pesquisa.

Nos testes feitos com camundongos, os cientistas observaram que a fertilidade começou a voltar ao normal algumas semanas após a interrupção do tratamento.

Os marcadores biológicos ligados à meiose se normalizaram em cerca de seis semanas.

Já a recuperação total da fertilidade aconteceu em até 30 semanas.

Além disso, os descendentes gerados após esse período nasceram saudáveis, sem alterações genéticas ou problemas de fertilidade.

A possibilidade de pausar e recuperar completamente a fertilidade pode transformar o anticoncepcional masculino em uma das maiores mudanças da medicina reprodutiva nas próximas décadas.

Quando o anticoncepcional masculino pode chegar às pessoas?

Apesar do entusiasmo, o anticoncepcional masculino ainda está em fase experimental.

O composto usado nos testes, chamado JQ1, não deve ser usado diretamente em humanos porque apresenta alguns efeitos colaterais neurológicos.

No entanto, ele serviu como prova de que o mecanismo funciona.

Agora, os cientistas trabalham para desenvolver moléculas mais específicas e seguras, capazes de produzir o mesmo efeito sem atingir outras partes do organismo.

A expectativa é que, no futuro, o anticoncepcional masculino possa ser administrado por meio de adesivos, injeções de longa duração ou outros métodos discretos e simples de usar.

Apesar do entusiasmo, o anticoncepcional masculino ainda está em fase experimental.

Apesar do entusiasmo, o anticoncepcional masculino ainda está em fase experimental

O anticoncepcional masculino pode mudar a divisão de responsabilidades?

Mais do que uma novidade científica, o anticoncepcional masculino pode representar uma mudança importante na forma como homens e mulheres dividem a responsabilidade pelo planejamento familiar.

Hoje, grande parte do peso físico, emocional e financeiro da contracepção ainda recai sobre as mulheres.

Se um método masculino seguro, reversível e eficiente chegar ao mercado, isso pode abrir espaço para relações mais equilibradas e para uma nova forma de pensar o controle da fertilidade.

Além disso, muitas pessoas que hoje não querem fazer vasectomia por medo da irreversibilidade poderiam encontrar nesse tipo de método uma alternativa muito mais confortável.

Ainda faltam alguns anos para que isso vire realidade, mas a pesquisa já mostra que o anticoncepcional masculino deixou de ser apenas uma ideia distante e passou a ser uma possibilidade concreta.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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