A conquista do voto feminino ampliou a democracia e abriu caminho para outras lutas

O direito ao voto feminino no Brasil completa 94 anos hoje

Quem liderou a luta pelo voto feminino no país? Por que essa conquista demorou tanto para acontecer?


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine viver em um país onde metade da população simplesmente não tem direito a escolher seus representantes. Sem voz nas urnas. Sem participação nas decisões políticas. Sem influência direta nos rumos do próprio futuro.

Hoje isso parece impensável. Mas essa era a realidade das mulheres brasileiras até o início do século XX.

No dia 24 de fevereiro de 1932, um decreto mudou essa história. Pela primeira vez, as mulheres conquistaram oficialmente o direito de votar no Brasil. Uma vitória que não surgiu por acaso, mas foi resultado de décadas de mobilização, resistência e coragem.

Integrantes do movimento sufragista do Rio Grande do Norte

Integrantes do movimento sufragista do Rio Grande do NortePolítica

Como surgiu o direito ao voto feminino no Brasil?

O voto feminino foi instituído por meio do Decreto nº 21.076, assinado pelo então presidente Getúlio Vargas. O documento criou o novo Código Eleitoral, estabeleceu o voto secreto e também fundou a Justiça Eleitoral.

A partir desse momento, mulheres passaram a ter o direito de votar e também de se candidatar a cargos políticos.

No entanto, havia uma limitação importante. O voto feminino era facultativo, ou seja, não era obrigatório como o dos homens. Essa igualdade só seria alcançada décadas depois, em 1965, quando o voto passou a ser obrigatório para todos.

Em 1933, as brasileiras participaram pela primeira vez de uma eleição nacional, ajudando a escolher os representantes da Assembleia Constituinte que elaboraria a Constituição de 1934. Foi a primeira vez que a voz feminina começou a ecoar oficialmente nas decisões políticas do país.

O direito ao voto feminino não foi um presente do Estado. Foi uma conquista construída por gerações de mulheres que se recusaram a aceitar o silêncio.

As mulheres votaram pela primeira vez em eleição nacional em 1933

As mulheres votaram pela primeira vez em eleição nacional em 1933

Quem liderou essa luta?

A conquista do sufrágio feminino no Brasil foi resultado da atuação de diversas lideranças e movimentos feministas que ganharam força nas primeiras décadas do século XX.

Entre os nomes mais importantes está Bertha Lutz, bióloga e uma das maiores referências do movimento. Ela fundou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, organização que lutava por igualdade política, educação e direitos civis para as mulheres.

Outra figura pioneira foi Nísia Floresta, ainda no século XIX, que já defendia educação e igualdade como caminhos para a emancipação feminina. Mais tarde, Leolinda Daltro criou o Partido Republicano Feminino, que organizou manifestações e pressionou o Congresso pela mudança da legislação eleitoral.

Essas mulheres enfrentaram críticas, ridicularização e resistência. Na época, a ideia de mulheres participando da política era vista por muitos como absurda.

Bertha Lutz na cidade de Natal, em 1928, em campanha pelo voto feminino

Bertha Lutz na cidade de Natal, em 1928, em campanha pelo voto feminino

As pioneiras que abriram caminho

Antes mesmo da regulamentação nacional, algumas mulheres já haviam conseguido avanços locais.

Em 1927, o Rio Grande do Norte se tornou o primeiro estado a permitir o voto feminino. Celina Guimarães Viana entrou para a história como a primeira eleitora do Brasil.

Pouco depois, em 1929, outra conquista simbólica aconteceu: Alzira Soriano foi eleita prefeita da cidade de Lajes, tornando-se a primeira mulher a ocupar esse cargo na América do Sul.

Esses marcos ajudaram a pressionar o governo federal e mostraram que a participação feminina na política não era apenas possível, mas necessária.

Em 1928, antes mesmo de as brasileiras poderem votar, Alzira Soriano foi eleita prefeita da cidade de Lajes (RN)

Em 1928, antes mesmo de as brasileiras poderem votar, Alzira Soriano foi eleita prefeita da cidade de Lajes (RN)

Por que o voto feminino demorou tanto?

Durante séculos, a política foi considerada um espaço exclusivamente masculino. A cidadania plena era restrita a poucos, geralmente homens ricos e influentes.

O movimento pelo sufrágio feminino fazia parte de uma transformação global. Em diversos países, mulheres começaram a reivindicar direitos básicos como educação, trabalho e participação política.

Na América Latina, o Equador foi o primeiro a reconhecer o voto feminino, em 1929. No mundo, a conquista aconteceu em momentos diferentes. Enquanto a Nova Zelândia reconheceu o direito em 1893, outros países só fizeram isso décadas depois.

A história do voto feminino mostra que a democracia não nasce pronta. Ela é construída passo a passo, com luta e persistência.

Primeira deputada federal eleita, Carlota Pereira de Queirós participou da Assembleia Constituinte 1934–1935

Primeira deputada federal eleita, Carlota Pereira de Queirós participou da Assembleia Constituinte 1934–1935

Quando o voto se tornou obrigatório para as mulheres?

Embora o direito tenha sido conquistado em 1932 e consolidado na Constituição de 1934, a obrigatoriedade só veio em 1965.

Até então, o voto feminino era opcional. A equiparação total com os homens marcou um avanço importante no reconhecimento da igualdade política.

Desde então, as mulheres não apenas votam, mas também ocupam cada vez mais espaços na política, embora a representação ainda esteja longe de refletir a proporção da população.

Eunice Michilles, a primeira senadora, tomou posse em 1979

Eunice Michilles, a primeira senadora, tomou posse em 1979

O que essa conquista representa hoje?

O dia 24 de fevereiro não é apenas uma data histórica. Ele simboliza a transformação do conceito de cidadania no Brasil.

A conquista do voto feminino ampliou a democracia e abriu caminho para outras lutas por igualdade de direitos. Ainda assim, desafios permanecem.

Apesar de representarem mais da metade da população brasileira, as mulheres continuam sub-representadas em cargos políticos e posições de poder.

A história do voto feminino lembra que direitos não são permanentes por natureza. Eles precisam ser defendidos, ampliados e fortalecidos constantemente.

E talvez a maior lição dessa conquista seja justamente essa: a democracia só é completa quando todas as vozes têm espaço para participar.

Já imaginou isso?

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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