Ele tinha apenas 30 anos, um corpo esculpido por anos de disciplina e um sonho que ia além das competições: queria trabalhar como modelo e construir uma carreira internacional. Nas redes sociais, seu rosto marcante e o físico impressionante renderam um apelido curioso: o “Brad Pitt do Irã”.
Mas a história de Davoud Sohrabi terminou de forma trágica e, agora, sua morte levanta perguntas que vão muito além de um caso individual. O que aconteceu com o fisiculturista em Teerã não envolve apenas violência. Envolve política, narrativa e um cenário de tensão que ajuda a entender o momento vivido pelo país.

A história de Davoud Sohrabi terminou de forma trágica
Quem era o “Brad Pitt do Irã”?
Davoud Sohrabi era preparador físico e fisiculturista. Jovem, disciplinado e bastante ativo nas redes sociais, ele vinha construindo sua imagem pública dentro do universo do esporte e da estética corporal.
O apelido que o tornou conhecido surgiu justamente por sua aparência e presença diante das câmeras. Além das competições, Davoud demonstrava interesse em atuar como modelo, ampliando sua visibilidade para além do mundo do fisiculturismo.
Na noite que mudaria sua vida, ele havia acabado de conquistar uma medalha de prata em um campeonato. Era, em teoria, um momento de celebração.
Poucas horas depois, tudo mudou.

Davoud Sohrabi era preparador físico e fisiculturista
O que aconteceu na noite do disparo?
Segundo relatos, cerca de duas horas após sair da competição, Davoud estava nas ruas de Teerã quando foi atingido por um disparo no olho durante um contexto de protestos.
Ele foi levado imediatamente ao hospital em estado grave. Durante o tratamento, chegou a passar por cirurgia para a retirada do olho, mas seu quadro permaneceu crítico.
Após cerca de 50 dias internado, o atleta não resistiu aos ferimentos e morreu.
O caso ilustra como situações de instabilidade social podem transformar a vida de pessoas comuns em tragédias inesperadas.
A morte, no entanto, foi apenas o início de uma série de acontecimentos que levantaram questionamentos.
Por que o velório chamou tanta atenção?
O funeral de Davoud não seguiu o padrão de cerimônias comuns no país. Testemunhas relataram que o evento durou cerca de três horas, um tempo considerado incomum.
Além disso, o local do sepultamento também gerou estranhamento. Ele foi enterrado em um santuário em Teerã, um espaço geralmente reservado a pessoas consideradas mártires ou figuras de destaque religioso ou político.
Outro detalhe observado foi a forte presença de membros da Basij, uma força paramilitar ligada à Guarda Revolucionária Islâmica, além de agentes à paisana.
Para muitos observadores, esses elementos indicam que o caso pode ter sido incorporado a uma narrativa oficial.

Davoud estava nas ruas de Teerã quando foi atingido por um disparo no olho durante um contexto de protestos
Pressão sobre a família e desaparecimento de publicações
A polêmica se intensificou após relatos de que publicações feitas por familiares nas redes sociais, lamentando a morte de Davoud, teriam desaparecido.
Perfis e conteúdos relacionados ao caso foram removidos, o que levantou suspeitas entre veículos internacionais e organizações independentes.
Fontes afirmaram que a família estaria sob pressão para declarar Davoud como membro da Basij, o que o colocaria oficialmente na posição de figura associada à estrutura estatal.
Quando a história de uma pessoa começa a ser disputada por diferentes versões, a morte deixa de ser apenas uma tragédia pessoal e passa a ter peso político.
Além disso, relatos indicam que parentes permaneceram sob vigilância durante a cerimônia e após o enterro.
Quando uma tragédia individual ganha dimensão política?
O caso de Davoud Sohrabi se insere em um contexto mais amplo de tensões sociais no Irã, onde protestos e repressões têm marcado o cenário nos últimos anos.
Em situações assim, mortes ocorridas durante manifestações frequentemente se tornam símbolos, seja para movimentos de contestação, seja para narrativas oficiais.
Isso acontece porque histórias pessoais têm grande poder de mobilização emocional. Um atleta jovem, conhecido nas redes, com uma trajetória de ascensão interrompida, rapidamente se transforma em um rosto que representa algo maior.
Ao mesmo tempo, o controle sobre a forma como esses casos são apresentados passa a ser estratégico.
O impacto além das fronteiras
A morte do chamado “Brad Pitt do Irã” repercutiu na imprensa internacional justamente por reunir elementos que despertam atenção global: juventude, visibilidade nas redes, contexto político e suspeitas de pressão institucional.
Histórias como essa mostram como, em determinados cenários, a vida de uma pessoa comum pode se tornar parte de disputas narrativas maiores.
E também levantam uma reflexão importante.
Em tempos de redes sociais, informação instantânea e conflitos políticos intensos, quem controla a história de alguém depois que ela termina?
Porque, às vezes, a disputa não é apenas pelo que aconteceu.
É pelo significado do que aconteceu.